domingo, 13 de janeiro de 2019

CHUVA – Ary Albuquerque

Noite convulsa.
Disparam no céu
relâmpagos e trovões.

Cai a chuva
que sorrateira escorre
parede abaixo,
indo desaguar na calçada.

Vazia a rua.
Lâmpadas ofuscadas
são espectros da noite
inventadas pela solidão.

A lua desaparece no dilúvio da noite.

APARIÇÃO DE RIMBAUD NA OFICINA - Glauco Flores de Sá Brito

Não foi sobre a nuvem
que o anjo apareceu, nu
seu busto, jasmim e maçã
curvado sobre a máquina
e a tinta da noite
tingia seus dedos

Dentro dos olhos uma borboleta
Rio de luar desciam os cabelos

Desde a aparição, que temo
e procuro
perdi-me da terra, anseio
nebuloso acorre-me
a cada instante, vivo
de pressentimentos

Porém longe do espaço
o anjo tem o céu na terra
e me sorri calado
entre sonho e carne
entre a tinta e o ferro

LE DON DÚ POÈME – Haroldo de Campos

um poema começa
por onde ele termina:
a margem de dúvida
um súbito inciso de gerânios
comanda seu destino

e, no entanto ele começa
(por onde ele termina) e a cabeça
Grisalha (branco topo ou cucúrbita
albina laborando signos) se
curva sob o dom luciferino –

domo de signos: e o poema começa
mansa loucura cancerígena
que exige estas linhas do branco
(por onde ele termina)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

DOIS POEMAS DE DILERCY ADLER

MULHER

Corpo desnudo
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
........................
HOMEM

Massa de músculos
e força
quanta potência
emana do teu corpo
teu corpo
que me entontece
estremece
enlouquece
mas também
enternece
com teu doce jeito de ser
menino

OS SEIOS - Teófilo Dias

Como serpente arquejante
Se enrosca em férvida areia,
Meu ávido olhar se enleia
No teu colo deslumbrante.

Quando o descobres, no ar
Morno calor se dissolve
Do aroma, em que ele se envolve,
Como em neblina o luar.

Se ao corpo te enrosco os braços,
A terra e os céus estremecem,
E os mundos febris parecem
Derreter-se nos espaços!

E tu nem sequer presumes
Que então, querida, até creio,
Sorver, desfeito em perfumes,
Todo o sangue do teu seio.

Depois que aspiro, ansiado,
Do teu níveo colo o incenso,
Minh'alma semelha um lenço
De viva essência molhado.

Deixa que a louca se deite
Nesse torpor, que extasia,
E que o vinho do deleite
Me espume na fantasia;

Pois não há ópio ou haschis (l)
Que me abrilhante as ideias
Como as fragrâncias sutis
Que fervem nas tuas veias!
..............
(l) Escrevemos hoje "haxixe".

RANCOROSO, MA NON TROPPO – Manoel Herzog

Do nosso amor restou belo monturo:
Garrafa pet, pneu velho, entulho,
Os urubus, pombos do amor, num arrulho
Dançam sobre esta cama, e o barro escuro

Que viraram os sonetos e os "eu juro".
Nosso fubá está cheio de gorgulho,
Pra merda alguma serve o teu orgulho,
Me vejo só na cama, e de pau duro.

Ressentimento, mal-estar, ciúme,
Engulho, lembranças de grandes fodas,
Punheta fria, gozo frio, negrume,

E a depressão que aos versos incomoda.
Meses de fronha suada e barba hirsuta –
Volta pra mim, sua filha duma puta!

EU ME DEFENDO COM SINTAXE E ROSAS – Jayro José Xavier

Eu me defendo com sintaxe e rosas
de teorias e teocracias:
quais, por aéreas brisas, fugidias
e quais, por duros ventos, desditosas.
Com soprarem as duas, enganosas,
de trevas são as trilhas destes dias:
daí a minha espada-de-utopias
ferindo o mundo (e mote) em novas glosas.
Fará meu verso a fábula fecundo.
E, um dia, um trovador de Sagitário
o reino que habitemos mais jucundo...
Terçar armas com reis é temerário;
pior, porém, é repensar o mundo
sem alma de poeta visionário.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

MORTE:PALAVRA - Vanderley Mendonça

a palavra morte não morre
não tem fim nem tumba
não é dor nem sombra
a palavra morte é
mors mot
dentro da palavra morte
o verbo falece
e o silêncio nasce

FALA E MOVIMENTO – Antonio Carlos Gomes


A fala sempre muda
muda em cada situação
Acompanha cada geração
Cada fala é um movimento
do corpo
da guerra 
da sedução
o corpo tem sua fala
harmônica
um movimento...
cada vida é um canto
um bailado
a vida é fala
dança o momento.

... AUMENTA UM PONTO – Luciana Mendonça

Os dias inventando estrelas
Os sonhos alcançando a manhã
A nuvem passando mansa
dispersando vento e fumaça

Os olhos soprando a fúria
As mãos despindo os desejos
O corpo calado sobre o divã
e a cabeça solta
descobrindo caminhos

A vida buscando vida
Os anos somando os anos
Os dias sonhando noites
e as noites recomeçando

MEU CORPO SE RESGUARDA DO PECADO - Nilza Menezes

Tenho medo do inferno
e a todo momento me policio
para não cair em tentação.
Santos me fiscalizam desde criança
ameaçando meu corpo
que se transformará em pó.
Pela vida tem sido possível
não matar, não roubar
mas meus pensamentos e sentimentos
tem superado
o que me foi delimitado.

ROLETA-RUSSA - Priscila Merizzio



o poema que sangra
não tem script de novela mexicana
é assassino por encomenda
com suas maquinações, Rasputin
degola o títere com um machado mongol
desaparece nas tabernas sombrías

massageia nádegas no pufe cor-de-urucum
derrama vodka em grandes lábios
sodomiza a duquesa
ao longe soa o uivo lúgubre
dos cães de Pavlov

outra orgia urge nas saunas imperiais
os versos necrosados na língua do czar
na manhã seguinte
a vítima é capa de tablóide 
– não há suspeitos

JANELAS – Ilka Brunhilde Laurito

Passos sem pegadas na magra madrugada.
A mesma luz fraca de todo dia,
amém, também se apaga.
Afago, gelado, o escuro do quarto apagado.
Noturno travado,
tranca e nunca esquece de conferir
se realmente trancou a porta.
Triste rindo cumpre sua quota.
Convive em silêncio cúmplice
com suas meias na sacada penduradas.
Freiras de flanela rasgada.
Frieiras na carne arrastada
pela quase finda vontade.
O que eu valho (que bom)
não vale nada.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A VIGÍLIA DAS ESTRELAS – Josué Montello

Quando a primeira tarde ensanguentada
Tombou, vencida pela noite fria,
Viu-se no espaço a ronda alvoraçada
De outras luzes buscando a luz do dia.

E essa primeira noite foi passada
Nos mesmos atropelos de agonia...
Que fim levara a tarde malograda?
E o ouro velho do sol que não se via?

Afinal um clarão por sobre a serra
Despontou e, na luz resplandecida,
Do ouro novo do sol, cobriu-se a terra.

Desde então toda vez que o dia, pelas
Alturas, surge — A luz é devolvida,
Como prémio à vigília das estrelas.

TORMENTA - Afanassi Fet

Tradução de Marco Lucchesi

Tormenta no céu,
ondas sediciosas ´–
Tormenta de ideias –
ondas espantosas –
Tormenta de ideias –
ideias undosas –
nuvem, negra nuvem,
ondas sediciosas.