quinta-feira, 14 de março de 2019

O BEIJO – Denise Emmer

Levou-me sem feitas frases
Somente passo e camisa
Roubou-me um beijo de brisa
Na quadratura da tarde

Jogou-me contra a parede
Rasgou-me a blusa de linho
Roubou-me um beijo de vinho
Diante das aves vesgas

Puxou-me para seu fundo
Rompeu a rosa pirâmide
Roubou-me um beijo de sangue
E bateu asas no mundo.

O PRESO POLÍTICO - Adauto de Souza Santos

Vieram os soldados
E o levaram preso
Pelo caminho até a prisão
Ele ria cheio de felicidade
Que mais parecia
Um louco varrido
Um dos soldados curioso
Lhe perguntou:
Porque ris tanto
Quando podes até ser enforcado
Por todos os seus crimes subversivos
E pelas suas ações políticas

E o preso político respondeu:
Vocês estão prendendo meu corpo
Mas meu coração não
Nem as minhas ideias
Nem a liberdade de meu pensamento
Que já não estão mais aqui
Vocês e seu governo
Estão perdendo tempo comigo
Conduzindo um corpo oco
Como uma mula velha
Vocês todos estão loucos...

AMOR DE PERDIÇÃO - Neide Archanjo

Era um fluir de formas
essência grave e leve
era a ordenação do caos
a harmonia breve.

Era o poema
encostado no muro
qual flor vadia
que entre ramas se esquecia.

Era o poeta
lambendo a página
em que o poema
encantado se escrevia.

terça-feira, 12 de março de 2019

CONSELHO DO ADMINISTRADOR DO BLOG


OS DIAS CONTADOS - Uberto Stabile

Melhor mudar de cidade que de camisa
poderia parecer sujo mas é mais higiênico
Melhor manter viva a lembrança
que lavar a roupa todo dia,
mais cedo ou mais tarde os erros
terminam cheirando demais a nós mesmos.
Melhor mudar de bar que de bebida
melhor a morte do que uma ferida
o que não cicatriza nunca termina.
Melhor teu beijo que uma despedida
melhor ninguém ainda conseguiu.
Melhor cantar que contar os dias.

LIMBO – Mara Senna


Pão dormido vira pedra.
Amor também.
Se achas que não,
explica-me, então.
Deve haver algum lugar
para onde vão
as histórias de amor
sem continuação.

ESPELHO, ESPELHO MEU! – Sandra Fayad

                              Espelho, espelho meu!
Mostra-me a verdadeira face.
Desnuda-me de mim mesma.
De cara com minha cara
Sem disfarce, sem muralha,
Com dedo em riste, mudo
Grita de frente quem sou.

Em tua presença, sem escudo,
Vejo linhas irregulares
Do tempo que envelheceu
Em condições singulares.
Sinalizam minhas perdas
Em momentos e lugares.

Reflete a luz incandescente
Que do meu olhar se perdeu.
Aproxima minha mente
Da graça de um camafeu.
Energiza a pele encorpada
Que, sem visco, esmaeceu.

Não importa, espelho meu!
Se, em tua sentença atroz,
Calas meu canto desentoado,
Aprisionas minha voz.
Sigo a cantar mentalmente
A riqueza dos anos dourados
Que a vida me deu de presente.

O CASARÃO – Edmar Guimarães

O casarão era mofo de lembranças.
O casarão era avô, avó e distância.
O casarão viu o tempo crescer no pátio.
O casarão estava acessível como a morte.

O vento escarnecia na carne envelhecida
Do casarão. Assoviava na sua vida.

Os muros do casarão eram feridas infeccionadas.
O casarão estava em adiantado caso
de composição.

O MAPA - Jaime Medeiros Júnior


Tudo está e não está no mapa
rio feito um filete frio
cursa sobre o papel, guarda vaga
impressão d'água que não vaza
tinta seca sobre o ex-vazio
que não afoga e nem desfaz a sede
simples nasce e morre para quem sabe ler
o seu pequeno curso 
de uma a outra margem da página

ISSO – Rafael Mantovani

se for mesmo tudo
em vão
(digo, se tudo é vaidade)
quero o vão onde eu encaixe
ou seja:
o seu

aguento enquanto
posso, protelo a
dissipação
pois só você
(amor) é meu
perfeito desperdício

sempre tive forças
pra passar
pro outro
lado (não
espero
mais que isso)

pena que é tão difícil
(e eis o
desespero)

preso entre o ser e as coisas
encontrar
o orifício.

domingo, 10 de março de 2019

CLAREIRA – Armindo Trevisan

Quando depois do amor
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem

e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira

e seu corpo
se move
e os seios
estão no tanque
dentro da sombra

tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que a moldaram


Armindo Trevisan, in 'Abajur de Píndaro e a Fabricação do Real'

TROCO-ME POR TI – Pedro Tamen

Troco-me por ti
Na brasa da fogueira mal ardida
renovo o fogo que perdi,
acendo, ascendo, ao lume, ao leme, à vida.

E só trocado, parece, por não ser
na verdade conjugo o velho verbo
e sou, remido esquartejado,
o retrato perfeito em que exacerbo
os passos recolhidos pelo tempo andado.


Pedro Tamen, in “Rua de Nenhures”

MUSA - Anna Akhmátova

Tradução de André Nogueira

Musa-irmã, em meus olhos fitou,
Tão claro é seu olhar, tão reluzente.
De mim tomou o anel de ouro,
A flor de um primeiro presente.

Musa! Vês, meninas e esposas
E viúvas, todas elas são alegres…
Morrer de velha é melhor coisa,
Só tal peça não me pregues!

Devo colher, já adivinho,
A tenra flor da margarida
E enfrentar tudo sozinha,
A terrestre provação da minha vida.

Vejo da janela a primavera:
Viver só — é meu destino, que assim seja.
Só não quero, só não quero, só não quero
É saber, que a outra beijam.

Amanhã me vão zombar detrás do espelho:
“Não é claro teu olhar, nem reluzente…”
Eu direi: “A Musa-irmã veio colhê-lo,
O divino meu presente”.

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM - Alexandre O’Neill

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

CRIANÇAS DO MUNDO - Rafael Rocha

Nas esquinas e nos semáforos
lá estão todos eles.
Nos esgotos abertos das ruas
vivem todos eles.
Correndo em bandos nas avenidas
lá vão todos eles
vendendo chicletes, chocolates,
a tentar limpar pára-brisas...

O mundo deles não é teu nem meu
Nós os vemos de dentro do carro
ou no jornal nacional global
ou escrevendo na internet
ou aos domingos ou às quartas
ou nos sábados e sextas-feiras.
Em todas noites loucas dessas...

Eu os vejo fumando crack
nos cantos escuros dos prédios
ao sair hipnotizado do cinema
ou de uma livraria com livros
ligados às questões sociais
e quando em casa bebo uma cerveja
escutando um rock ou algo da MPB...

Eu os vejo em fotos de jornais
e lá vão eles em bandos na busca
de um dinheiro para a vida
de um sonho por um espaço
de jornais para serem lençóis...
E mais ninguém olha para eles.
Parecem viver noutra dimensão...

Nem a mulher saindo do templo
rindo pelos pecados apagados.
Livro negro no sovaco olha para eles.
Tem medo de ter pena e sentir
que seu deus é um merda
e que seus evangelhos são vômitos
para encher cofres de ouro...

Lá estão eles e todos vivem
catando o lixo na busca faminta
de um pão duro ou um osso
de chupeta nos lábios e ainda
conseguem sorrir e ter alegria
para brincar nas calçadas sujas
e continuar sendo sempre
meninos e meninas do mundo.

CANTA AMÉRICA – Solano Trindade

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

A CIGARRA – Hermes Fontes


Não, orgulhosa! não, alma nobre e vadia,
nunca foste pedir migalha ao formigueiro!
Dessedenta-te o sol e te nutre a alegria
De viver e morrer cantando, o dia inteiro...

Que infâmia ires ao vizinho celeiro
tu, que tens o celeiro universal do Dia,
e preferes morrer queimada em teu braseiro
íntimo a renunciar a tua fantasia!

Não! tu és superior ao código e ao compêndio,
à Economia, ou à Moral. — Aristocrata,
crês que prever miséria é já um vilipêndio.

Primadona pagã do Jardim e da Mata,
trazes dentro em ti mesma, em teu constante incêndio, 
a luz, que te alimenta e o fogo, que te mata...

BONDE – Abelardo Romero

Quando volto de tarde volto triste -
Vem muita gente no bonde.
Um rapaz abraçado com uma viúva idosa,
um velhinho que já nem sabe botar o chapéu direito,
um homem aéreo, queimando o bigode com o cigarro
outro olhando os anúncios,
outro falando alto.

Tenho raiva do povo.
Sinto vontade de descer do bonde.
Mas em casa eu me lembro do que houve no bonde,
e me arrependo dos meus pensamentos.
Pobres dos meus irmãos que viajam de bonde!

Também sou triste, também sou pobre.
também viajo de bonde.

NÓS – Guilherme de Almeida

Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

A VLADIMIR MAIAKÓVSKI – Marina Tsvetaeva

Tradução de Haroldo de Campos

Acima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo -
Salve, pelos séculos, Vladímir!

Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.

Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.

Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta - e ligeiro
Toma o timão, rema no teu voo
Áspero de arcanjo carreteiro.

REMEMBER - Christina Rossetti

- Tradução de Manuel Bandeira -

Recorda-te de mim quando eu embora
for para o chão silente e desolado;
quando não te tiver mais ao meu lado
e sombra vá chorar por quem me chora. 

Quando não mais puderes, hora a hora,
falar-me no futuro que hás sonhado,
ah! de mim te recorda e do passado,
delícia do presente por agora. 

No entanto, se algum dia me olvidares
e depois te lembrares novamente,
não chores: que, se em meio aos meus pesares, 

um resto houver do afeto que em mim viste, 
- melhor é me esqueceres, mas contente, 
que me lembrares e ficares triste.