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segunda-feira, 16 de maio de 2022

POEMAS de Beth Brait Alvim

 

A FEBRE E A MARIPOSA 1

el dios mariposa me abraça
me enlaça de púrpura e suga
lento o sangue e o sal do que
invento
.......
A FEBRE E A MARIPOSA 2

mariposas me atordoam
uivam nos meus pensamentos
penetram ardentes
nas dobras do
tempo
.......
A FEBRE E A MARIPOSA 3

o desejo de todas as terras
me abraça e me suga violento
me enlouquece pelo que sinto
me liberta pelo que
invento
.......
CREPUSCULAR

banha os olhos com mel e a língua com água benta
aquieta tua alma
e estranha
ralenta a respiração e acompanha

de onde estiver
o sol morrendo
.......
LÍNGUA FEBRIL

a mão da mãe morta afaga os mesmos medos
com alfinete nas unhas e o dedo ainda em riste

alma dourada e fria em mim perene e dura
cujo olho direito dança medonho e triste

vigia tudo e todos e todos os lados
enquanto o outro vela minha eterna insônia

e espanta o sonho mau que
sempre me acompanha

é manso o colo que falta
é ácida a secura do olho que estranha

fora de órbita a língua enrola
e o silêncio queima o vazio das entranhas

domingo, 8 de maio de 2022

LICOR – Walmir Ayala

 

Dulcíssimas cerejas
no ritual de outubro.
Se eu te mordesse os cílios
e gemesses de espanto
eu diria que o amor
é uma invenção do sonho,
que o corpo com que exerço
esta dança secreta
não tem definição
mas é garça e poeira,
lasca de unha, mancha
de sangue num lençol.

Riríamos do amor
de tal forma alumbrados
que o sonho passaria
e eu veria a verdade
que paira quando tudo
é prazer triturado.

Prazer? Eu sondaria
milímetros de nervos
e pesaria os gestos
as mínimas torções
concluindo com o nada
de uma nuvem traçada
numa folha vadia.
(Nem sequer uma nuvem
distante e verdadeira.)

Se quisesses me ouvir
eu contaria a história
de uma imagem que quis
roubar do que é real
uma gota de mel.

Diria que este furto
sem dimensão exata
seria toda a glória
desta imagem sem voz.
Se quisesses me ouvir
eu te prometeria
logo após dispensar
levando a minha história.

E eu te desejaria
o porto da loucura
para que só falasses
desta opaca memória.

Dulcíssimas cerejas.
Outubro, a névoa, nada
reconstrói o perdido
quando é mito refeito
de improvável delícia.

Dulcíssimas cerejas,
imponderável gesto
suspenso entre o remorso
e a frustrada carícia.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O POEMA BRANCO - Ana Rüsche

 

e ela montada
no topo da bicicleta ergométrica
uma caixinha de música
laqueada como gelo
a rodar, a esperar
a agulha hipodérmica de endorfina
para capar seu coração.

um romance raso.
eu queria ser um esquimó
mas entre uma faísca e outra,
o frio da estroboscópica,
a solidão me dá picadas
uma cocaína negra com mel
que me anima.

minhas mortes são semanais.
em lençóis alugados por pernoite
no degelo de teus cabelos negros
de latin lover

e como você faz a tantas donzelas
teus dedos apalpam
minha pequena morte úmida
e lhe aplicam um
grito seco na canção de rádio pela tarde
olhos pretos cheios de branco

mas agora é escuro
pela pia de mármore duro
ela derrama a borra de café
que se transforma em terra
e embala os natimortos de nossos sonhos

um romance raso.
e ela entediada roía unhas
na internet os esquimós
seus pés assustadoramente descalços.