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domingo, 8 de maio de 2022

LICOR – Walmir Ayala

 

Dulcíssimas cerejas
no ritual de outubro.
Se eu te mordesse os cílios
e gemesses de espanto
eu diria que o amor
é uma invenção do sonho,
que o corpo com que exerço
esta dança secreta
não tem definição
mas é garça e poeira,
lasca de unha, mancha
de sangue num lençol.

Riríamos do amor
de tal forma alumbrados
que o sonho passaria
e eu veria a verdade
que paira quando tudo
é prazer triturado.

Prazer? Eu sondaria
milímetros de nervos
e pesaria os gestos
as mínimas torções
concluindo com o nada
de uma nuvem traçada
numa folha vadia.
(Nem sequer uma nuvem
distante e verdadeira.)

Se quisesses me ouvir
eu contaria a história
de uma imagem que quis
roubar do que é real
uma gota de mel.

Diria que este furto
sem dimensão exata
seria toda a glória
desta imagem sem voz.
Se quisesses me ouvir
eu te prometeria
logo após dispensar
levando a minha história.

E eu te desejaria
o porto da loucura
para que só falasses
desta opaca memória.

Dulcíssimas cerejas.
Outubro, a névoa, nada
reconstrói o perdido
quando é mito refeito
de improvável delícia.

Dulcíssimas cerejas,
imponderável gesto
suspenso entre o remorso
e a frustrada carícia.

terça-feira, 26 de abril de 2022

POEMAS de Tânia Diniz

 

MAESTRO

Orquestra

felina sinfonia

desencadeado prazer

Dança agônica

divina e absoluta

Sob tua batuta.

Véus, ventre, xaile.

Teu, meu corpo de baile.
............
LUAS

Na luz nova
de recurvo brilho
a paixão renovas

No meu céu
de cio crescente
a chama alteia

E serpente e sereia
me encontro vindo:
lua cheia

E quando, bacante,
mesmo minguante,
me prendes a cintura
na quadratura a de cada mês,
a cada vez,
desvendas com arte
a sanguínea face
de minha lua escarlate.
...................
CONSTELAÇÕES

Noite
a curvatura do dorso
o singelo pescoço...
na placidez, o boi rumina rubis
e baba, leitosos, quartzos róseos,
onde cintila aldebarã.

De manhã -
presepeiro, pesado, às vezes ligeiro,
boi de canga, boi de farra,
bumbo meu boi.
E touro bravo, de sangrenta arena,
me volto manso,
sem qualquer pena.
No laço fácil do teu abraço,
vaca leiteira, lambe-lambê-las,
rumino estrelas.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

PRÁXIS AMANDI – Olímpio Bonald Neto

 

Na práxis de então
bem pouco se aprendia
com as vagas teorias
da chula sacanagem.
Quase sempre havia alguém
que não gozava
e se perdia
no meio da viagem.

Hoje se sabe,
de Kama Sutra e Sade
passando de Ovídio as Barbarela
por dentro de Vinícius de Morais,
que amar é arte requintada
e há de
melhor acontecer a quem mais sabe.

Começa-se a bolina pelos olhos
ou pela planta dos pés
- que tanto faz -
mas que se o faça como quem não quer

Que se tateie - muito de leve e manso -
por cada canto da pele o corpo inteiro
e sempre no sentido
inverso ao da penugem

Bem lentamente caia nos declives
e nos velados mais fundos e escondidos.
Teça, com os dedos leves, pelo a pelo,
a trama do prazer,
roçando e eriçando cada uma
das papilas digitais - as mais sensíveis
desde os agudos picos aos mais túmidos
e úmidos abismos,
como se cada polpa de dedo fosse língua.

Não se abandone então..
Não perca o tino,
que o pássaro do espasmo é fugidio,
e cansa de voar
nas brumas da emoção
do ser em cio.

Daí por diante
passe a refletir
à frente dos espelhos,
e crie - a dois ou a dez
todas as formas de ir
e posições
passíveis das possíveis
contorções.

Prossiga nos caminhos da surpresa
e não se escandalize
se a resposta vier maior que a empresa.
Pois que, por suas mãos
os deuses são,
e não se sabe onde
explodindo seus próximos desejos.

E tendo tudo isto posto,
tome todo tento à tentação
de sua companheira.

E, se tiver força e sã ciência,
refreie os seus ginetes,
sorva a seiva que lhe molha os lábios
inspire fundo,
até que a égua úmida, esgotada,
deliquefeita e mais deliquescente
estanque o seu galope,
e se abandone, como quem se esquece
da própria servidão
da vida e morte,
na relva dos lençóis.
E então comece.