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domingo, 29 de maio de 2022

E RIR À SOLTA E NÃO MORRER – Ricardo Aleixo

 

Poder morrer
Ainda no ventre

da mulher
que me pariu.

E não ter
morrido lá.

Poder morrer
de algum veneno

que alguém
insuflou num fruto

que eu menino
colheria enquanto

brincava sozinho.
E não morrer.

Poder morrer
Adolescente sob

as patas distraídas
de uma esquina

de domingo.
E rir à solta e

não morrer.
Poder morrer

num dia quente,
tudo já seco

por dentro, e a
cidade e o mundo

alheios. Não morri
num dia assim.

Poder morrer
de tantas formas

e não ter morrido
nunca nenhum

desses tantos anos
que eu vivo

aqui entre
os humanos.

terça-feira, 26 de abril de 2022

POEMAS de Tânia Diniz

 

MAESTRO

Orquestra

felina sinfonia

desencadeado prazer

Dança agônica

divina e absoluta

Sob tua batuta.

Véus, ventre, xaile.

Teu, meu corpo de baile.
............
LUAS

Na luz nova
de recurvo brilho
a paixão renovas

No meu céu
de cio crescente
a chama alteia

E serpente e sereia
me encontro vindo:
lua cheia

E quando, bacante,
mesmo minguante,
me prendes a cintura
na quadratura a de cada mês,
a cada vez,
desvendas com arte
a sanguínea face
de minha lua escarlate.
...................
CONSTELAÇÕES

Noite
a curvatura do dorso
o singelo pescoço...
na placidez, o boi rumina rubis
e baba, leitosos, quartzos róseos,
onde cintila aldebarã.

De manhã -
presepeiro, pesado, às vezes ligeiro,
boi de canga, boi de farra,
bumbo meu boi.
E touro bravo, de sangrenta arena,
me volto manso,
sem qualquer pena.
No laço fácil do teu abraço,
vaca leiteira, lambe-lambê-las,
rumino estrelas.

sábado, 2 de abril de 2022

POEMAS de Jhenifer Silva

 

DAS CONSIDERAÇÕES

bem sei que ninguém compõe poemas
como um velho cego
e que nenhum éden uiva nos ossos o amor
sei que todo cheiro exalado do ventre
cheira a cimento e a sede
sei que vejo, meu filho, um moleque
descalço com o cajado dos desejos
a dançar é a serpente enfeitiçada
pela canção jamais composta:
dos dedos - segredos
das íris - suor
sei que outras histórias mais
se aniquilarão na grande selva
e que nada poderá impedir
outra coisa não me resta então
que esculpir o nome das ervas
todas as mil que conheço
no dorso dos teus dentes brancos
..............
O VENTO

o vento nas folhas
faz mexer poemas
então adormecidos

escuto a fim de colher
o farol desobediente
de todas as plantas

a língua atenta ao som
estuda o quintal até sair
gasta: inteiramente suja

entende com precisão
a dimensão do corte
a expressão da carne
a vala funda na qual
está a palavra medo
.............
ALGUM NOME PARA ISTO

chamar esta mata de planta ou de casa
plantar esta casa e chamá-la de canto
de reza de estrada de uma entidade qualquer
nem se termina a planta e já é uma casa onde se habita
na brancura ofuscante e indelével das paredes
na ausência de vigas e teto - o pranto da floresta
encontra as migalhas hostis da mísera existência
tão indiferentes aos privilégios da luminosidade
meus troncos se cobrem de lábios mui quentes
dos quais saem duros e belos ruídos
cada melodia estilhaça tudo em mil
caindo-se a terra, podemos existir