sábado, 24 de março de 2018

IMPOSSÍVEL – Benedicta de Mello

Vive sempre a fugir-me o que procuro,
numa volúpia incrível de ir-se embora;
passa-me n’alma, voa, pousa fora,
cai-me das mãos se o tenho mais seguro.

Se o alcanço, não o vejo, é muito escuro;
ansiosa espero o refulgir da aurora,
para perdê-lo assim que o dia aflora.
E outra vez a segui-lo me aventuro.

Impossível! Efêmero estandarte!
queira o homem , não queira, o mundo é vosso.
Estais em tudo, como em qualquer parte.

Empregando em buscar-vos todo o empenho,
quando quero é uma coisa que não posso,
quando posso é uma coisa que não tenho.

O SANGUE DAS ROSAS – Abdias da Costa Neves

Quando sinto cantarem sobre as telhas
o ouro da luz e a voz das madrugadas,
vou ver morrer no céu as irisadas,
pequeninas e fúlgidas centelhas.

Ainda não despertaram as abelhas
para a festa das ramas enfloradas.
Pássaros dormem. Abertas nas estradas,
rosas pompeiam pétalas vermelhas...

De onde lhe vem aquele sangue rubro?
Sigo, pé ante pé, olho e me encubro
nos roseirais e de onde posso vê-las,

E vejo, então, velando o espaço infindo,
aquele sangue vir do céu caindo
pelos olhos de prata das estrelas...

segunda-feira, 19 de março de 2018

CANTANDO POR AÍ – John Ashbery

Tradução João Barrento

Que nome tenho eu para ti?
Decerto não há nome para ti
No sentido em que as estrelas não têm nomes
Que de algum modo lhes servem. Andando por aí,

Um motivo de curiosidade para alguns,
Mas tu estás demasiado preocupado
Com a nódoa secreta do outro lado da tua alma
Para falar muito, e vagueias por aí,

Sorrindo para ti e para os outros.
Chega a ser um tanto solitário,
Mas ao mesmo tempo desanimador,
Contraproducente, quando percebes uma vez mais

Que o caminho mais longo é o mais eficaz,
Aquele que serpenteava por entre as ilhas, e
Parecia que andavas sempre em círculo.
E agora que o fim está perto

Os gomos da viagem abrem-se como um laranja.
Lá dentro há luz, e mistério e sustento.
Anda ver. Vem, não por mim, mas por isso.
Mas se eu ainda lá estiver, concede que nos possamos encontrar.

OS POBRES - William Carlos Williams

Tradução José Paulo Paes

É a anarquia da pobreza
que me encanta, a velha
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo

Ou uma sacada de ferro fundido
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças

que refletem cada período e
estilo da necessidade -
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época

sem cercas delimitando quase
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada –

os seus três metros de calçada
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir
tomar conta da cidade inteira

NALGUM LUGAR EM QUE EU NUNCA ESTIVE - E. E. Cummings

Tradução Augusto de Campos

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

sexta-feira, 16 de março de 2018

A OUTRA FACE – Leandro Jardim

Eu sou a face
Face à face
Da vitória
Mas sou derrota e liberdade
Autonomia
Em meio à farra de excluídos
Eu me incluí
Do feto à foice
Ou pelo instante de uma festa
Onde encarei
Frente a frente
O rosto maleável
E severo da verdade

Que me mentiu solenemente.

HÁ SOMENTE DOIS PAÍSES - Enrique Lihn

Tradução de Marco Aurélio Cremasco

Há somente dois países: o dos sãos e o dos enfermos
por um tempo se pode gozar de dupla nacionalidade
mas, a longo prazo, isso não tem sentido
Dói separar-se, pouco a pouco, dos sãos a quem
seguiremos unidos, até a morte
separadamente unidos
Com os doentes cabe uma crescente cumplicidade
que em nada se parece à amizade ou ao amor
(essas mitologias que dão seus últimos frutos
a uns passos do machado)
Começamos a enviar e receber
mensagens de nossos verdadeiros
/concidadãos
uma palavra de alento
um folheto sobre o câncer

A IDADE – Heleno Godoy

A idade chega, amigo, quando menos
a esperamos, como bicho sorrateiro
ou ave que pousa milagrosamente
sobre o muro que à nossa volta cons-
truímos - uma roupa mais brilhante
hoje, um corte de cabelo mais curto,
um ajuste no cinto, uma tintura
na barba escura ou no bigode forte
- essas pequenas coisas que aparecem
ou que aprendemos ao longo dos anos
de esperarmos por ela, essa idade 
sutil ou insidiosa e que vem
rápida ou lentamente, e se a deixamos:
- a idade chega quando jovens somos.

UMA LEMBRANÇA PARA OS LEITORES


quinta-feira, 15 de março de 2018

CEGUEIRA – Priscila Merizzio

debaixo das unhas
tenho terra de cemitério

nas pontas dos dedos
cera de velas de sétimo dia

crianças corriam no parque
eu fazia a brincadeira do copo

coração de pedra lambido por ondas
que limam e deslizam
nos caracóis colados
— desgruda a concha e cutuca a carne mole

o pouco de amor ao próximo que me resta
gira enlouquecido num liquidificador
misturando Diet Shake e farinha de maracujá

sal grosso para me livrar das superstições

eu pego na sua mão como um espírito

outro dia se vai

ter de dormir me irrita mais
que os palhaços da Rua XV

CIÊNCIA – Nathalia Campos

Derreter a certeza dos astros
E com a parafina colorida do giz de cera
Animar os sistemas
Como nos dias da nossa infância
Quando a luz elétrica pingava
Um dia sim um dia sim
E qualquer verde era azul
Ou nem tanto

Acaçapar as bolas de sinuca em gozo de anarquia
(Rico mesmo era quem nem vela tinha)
Nos dava o luxo de recontar o universo
Com a goela do breu

Só as crianças sabem
Que o que existe mesmo é a luz
E se safam da fogueira

A HORA DA ESTRELA – Rita Isadora Pessoa

esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram
diretamente da água
para matar a sede do rio

no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado
ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
 você é o mais romântico
e eu digo “mas nós somos
românticos de formas diferentes”
e você graceja “é, de fato, eu sou da tradição
 do romantismo inglês e alemão”
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
 e a vastidão dos espaços naturais abertos,
 você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, “você é a própria grécia”,
 [cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra,
mais a fúria do olimpo
 com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo
o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão
do nome-do-pai, da mãe […]

e aí, cá para nós, você há de me
responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável - 
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

- se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
 (encenado reencontrado)
 -  o amor com a faca na mão

e a própria sede do rio.

terça-feira, 13 de março de 2018

CANÇÃO DO AMOR LIVRE – Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

OUTRA CIDADE – Laura Wittner

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

CANTO DE DISSOLUÇÃO – Matheus Guménin Barreto

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

quarta-feira, 7 de março de 2018

PARTIDA – Yasmin Nigri

Já não somos mais as mesmas 
Desde que voltamos
Lembro das vezes 
Que você lamentou 
Porque não como peixe 
E nada de origem animal 
Não posso te acompanhar 
No seu maior prazer 
Ontem mesmo estive 
Acuada feito animal 
Nas suas mãos 
Não sou capaz 
Muito menos você
Explico de qualquer jeito 
Como fogem os animais 
Se você tenta machucá-los 
E uma alface não reage 
Quando você a corta 
Estou de partida

CORAÇÃO – Carla Diacov

eu inventei que era chá
inventei que era uma raiz que
nasce só lá na Índia
nasce só e sozinha
uma por ano
dizem
inventei que dizem que
olho muito pequeno é sangue
muito engrossado nas partes íntimas
invento para amanhã que
será chuva junto das
montanhas na Índia
lá em
bem perto da
raiz só
invento que espirro
é ultimato pra libélula de
coração negligenciado
agora invento que não você
sabe que as libélulas quando pro
criam formam um hexágono exatamente irregular?

ANTES DE PARTIR – Isaias Edson Sidney

antes de partir quebre todos os ovos
espalhe as cinzas do fogão a lenha
colha asas de borboletas ao pé do vulcão
empacote os doze mil livros nunca lidos
dobre a cor dos sinos que badalam dia e noite
invente barcos que naveguem nas areias
sofra ataques epilépticos ao fazer amor
compre ações da bolsa e vomite os dividendos
capte a energia proveniente das estrelas solitárias
meça o espanto no canto do galo da madrugada
aspire o orvalho de templos hindus na califórnia
instigue os instintos selvagens do bule de café
absorva o som de pássaros de uma orquestra sinfônica
beba o absinto que escorre do trono azul do rei
aplauda o final do show com garras de gárgulas
e sobretudo antes do fim não deixe de marcar
muito bem marcado no seu peito com ferro em brasa
o nome oculto das suas paixões mais proibidas

terça-feira, 6 de março de 2018

GESTO – Daniele Delias

um gesto claro, eu diria

este de escorregarmos pra fora
até que a memória acendesse ternuras
por campos inteiros de obscuridade

só depois pediríamos à noite
que estendesse sua língua de fogo
sobre nossos olhos cansados

só depois nos diríamos
o que mães dizem às filhas
quando inauguram o primeiro silêncio

DE REPENTE EU QUERO DAR – Luana Muniz




sete pulos
sete mergulhos no Jordão
matar minha sede
da gélida água santa
De repente tenho vontade
de ser víbora, traiçoeira
o cavalo de Tróia
que a sua Odisseia particular
glorificou
De repente quero imolar
um cordeiro em teu nome
usar o sangue pra conceber
o assédio que sempre amei
De repente quero ser
a conflituosa fêmea
a inimiga parasita
o bicho sangrador mensal
que te sacraliza os dias
De repente quero desempenhar
os 12 trabalhos hérculeos
apenas porque a inércia
me parece uma lei
demasiado radical
De repente quero ser fantoche
buginganga sua
seu troféu
vestir meias 3/4
ensaiar o palavreado baixo
geniosa
petulante
e dizer que quero ser movida
como a rainha do xadrez
que você joga todo sábado
De repente quero que morda
o meu fruto proibido
e que a minha nódoa
não te saia da camisa
nem com alvejante caro
De repente quero ser paga
para espalhar a decência
pregar o sermão da montanha
num monte ermo do Líbano
sem macular
seu lençol de linho fino
De repente quero implantar
uma cláusula
na constituição federal
e advogar todos os seus danos
(foram muitos)
De repente quero ser agredida
como um judeu
na alemanha nazista
e quero que o meu crime seja
totalmente inafiançável
De repente sinto um complexo
de Vladimir Putin
me dá ganas
de governar o seu país
ser ditadora déspota tirânica
De repente quero ser stripper
virar título de romance
do idiota que me comeu
De repente eu adoraria ser
fuzilada
em praça pública
com requintes de crueldade
só pro seu zoom óptico
focalizar o meu prazer
De repente o diabo
fala comigo
numa língua ébria e barroca
o dialeto molhado dos anjos
a linguagem dos poetas
e eu tenho vontade de
vender a minha alma
em troca de
três, quatro ou cinco
horas
de fluidos com você