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segunda-feira, 28 de março de 2022

POEMAS de Ana Martins Marques

 

AQUÁRIO

Os peixes são tristes no aquário
mesmo que não conheçam o mar
alguma coisa neles quer o amplo.

No poema
morrem sem água
na primeira estrofe.
.........................
QUINTAL

para a tristeza de uma vida sem colheita
para a indignidade da decoração
essas plantas foram vindo
como cães domesticados
cada uma de uma cor.
..............................
O DESEJO

Sou alérgica ao desejo
como ao mofo, ao mar,
aos gatos, ao leite,
aos lugares fechados, a certas flores.
Sou alérgica ao desejo –
doem-me os olhos,
incham-me as pernas,
o sexo arde
como uma caixa de abelhas
lacrada.
O desejo acende-me
como uma casa incendiada;
o desejo me deixa
sem mais nada.
...........................
RELÂMPAGO

Certas máquinas são feitas para o esquecimento.
Há dias em que sinto trabalharem em mim
as confusões do relâmpago.
Então coleciono letras, órbitas, radares.
A linha que me liga aos quadris desta noite imensa
é a mesma que sai da garganta aberta do dia.
Vejo as estrelas desenharem-se em constelações,
sei muitas coisas rápidas, precisas,
por alguns instantes.

quarta-feira, 23 de março de 2022

CANTO NUPCIAL - Ivo Barroso

 

Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.

De tua fronte penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.

Quero-te assim - floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra;
e teu ventre redondo - abrigo de sóis -
palpita na esperança genital da espécie.

No chão,
tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam,
para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.

E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios - como duas luas gêmeas - crescerão
em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá
na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser.

terça-feira, 22 de março de 2022

UM POEMA DE AMOR – Charles Bukowski

 

Tradução de Jorge Wanderley
................
Todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.