quinta-feira, 30 de abril de 2015

O QUE ACONTECEU COMIGO - Vladimir Maiakovski


As esquadras acodem ao porto.
O trem corre para as estações.
Eu, mais depressa ainda,
vou a ti,
atraído, arrebatado,
pois que te amo.
Assim como se apeia
o avarento cavaleiro de Púchkin,
alegre por encafuar-se em seu sótão,
assim eu
regresso a ti, amada,
com o coração encantado de mim.
Ficais contentes de retornar à casa.
Ali vos livrais da sujeira,
raspando-vos, lavando-vos,
fazendo a barba.
Assim retorno eu a ti.
Por acaso,
indo a ti não volto à minha casa?
Gente terrena ao seio da terra volta.

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI - Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

terça-feira, 28 de abril de 2015

A VIDA SÃO DEVERES – Mário Quintana

A vida são deveres,
que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas...
Quando se vê, já é sexta-feira
Quando se vê, já é Natal ....
Quando se vê, já terminou o ano .
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida .
Quando se vê, passaram-se 50 anos !
Agora, é tarde demais para ser reprovado ...
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, 
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente
e iria jogando pelo caminho, 
a casca dourada e inútil das horas ...
Eu seguraria todos os meus amigos, que
Já não sei como e onde eles estão e diria:
vocês são extremamente importantes para mim.
Seguraria o amor que está a minha frente
e diria que eu o amo...
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer
algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado
por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo
que, infelizmente, nunca mais voltará.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

POSSE - João José Cochofel

Lá fora
o sol passava as fronteiras
de horizontes longínquos,
e dentro do quarto tombava
uma luz vaga…
Deitado
o teu lindo corpo espraiava-se
brando,
num abandono morno
que a luz sem arestas afagava.
Tudo em ti era uma espera
dos teus seios suaves de menina
e do teu sexo em flor.
Minhas mãos escorregaram lentas…
Tu lentamente cedias
e os olhos eram poços fundos e escuros
na noite que descia

ENCONTRO – Marina Tsvetaeva

(Tradução de Décio Pignatari )

Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor … Então, enterre-me no céu!

O QUE DIZEM OS GIRASSÓIS SOBRE A MORTE – Micheline Verunschk


Eles vestiram
suas roupas sujas
e saíram de casa.
E suas mãos
se desmanchando
em linhas de sangue
borraram a lã dos cordeiros
e as amendoeiras.
Nossas tias lamentavam a lua,
o tapete que teciam,
a voz de esmeralda
da menina caída no poço.
Eles não sabiam,
mas estávamos lá.
Bebemos em silêncio
o sêmen ainda quente do morto.

terça-feira, 17 de março de 2015

A LUA NOVA – Manoel Azevedo da Silveira Neto



No silêncio da cor - treva silente -
abriu-se a noite mádida e sombria,
logo que o Sol, rezando: Ave Maria...
fechou no Ocaso as portas de oiro ardente.
 
  A terra, a mata, o rio, a penedia,
tudo se fora pela treva e, rente
ao céu, ficou a lua nova algente,
como um sonho esquecido pelo dia.
 
  Ela assim foi: morreu; desde esse instante,
pálido e frio, como a lua nova,
 ficou-me entre as saudades seu semblante.
 
  Mas, ouve: quanto mais doída cresce
 a noite que me vem da sua cova, 
mais branca e inda mais fria ela aparece.

A NUVEM – Teófilo Dias



Sulcas o ar de um rastro perfumoso
que os nervos me alvoroça e tantaliza,
 quando o teu corpo musical desliza
ao hino do teu passo harmonioso.
 
A pressão do teu lábio saboroso
verte-me na alma um vinho que eletriza,
que os músculos me embebe, e os nectariza,
e afrouxa-os, num delíquio langoroso.
 
E quando junto a mim passas, criança,
revolta a crespa, luxuosa trança,
 na espádua arfando em túrbidos negrumes,
 
naufraga-me a razão em sombra densa,
 como se houvera sobre mim suspensa
uma nuvem de cálidos perfumes!

CLEÓPATRA - Alberto Samain

 (Tradução de Álvaro Reis)
 
Densa, a noite a pesar sobre o Nilo obscuro.
Cleópatra, arrebatada à luz fria e esplendente
dos astros, afastando as servas, de repente,
rasga as vestes num gesto impudico e seguro.
 
De pé, no alto terraço, a plástica imponente
 mostra cheia de amor como um fruto maduro!
 Toda nua, ela vibra, ignívoma serpente,
do vento ao morno beijo, alva, no cimo escuro.
 
Ela quer tenha o mundo esta noite o perfume
da sua carne! E ao olhar, fulge-lhe estranho lume...
- sombria flor do sexo esparsa no ar noturno

- E a Esfinge, pelo areal do tédio taciturno,
sente um fogo invadir-lhe o impassível granito,
- e um frêmito percorre o deserto infinito...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

TRILHOS - Rafael Rocha - Do livro "Poemas Escolhidos"

Quando a tarde desceu ao pântano da noite
Trazendo um manto de piscares de estrelas
Um verso tentava nascer numa explosão
Entre galáxias, luas e cometas
Sentindo a saudade mais que desvairada
De tempos que não mais lhes são.

O poeta acreditava na verdade de outros mundos
Tentando desgrudar de si pensamentos maus
Na sutileza de buscar o orgasmo antigo
Da primeira fêmea onde fez o sangue patinar.
Resta a pergunta: o que será que ele fez
Para merecer tão insana saudade/dor?

Tinha um relógio na estação dos trens antigos
A marcar as horas da espera pela mulher
Fosse namorada, fosse amante, fosse puta.
Hoje os trens antigos não andam pelos trilhos
E não se pode ser mais alegre no pairar da tarde
Nem se caçar as tanajuras no amainar da chuva.

A verdade da imbecilidade ganha as ruas.
Homens se ajoelham e rogam pela vida eterna
Aos santos e deuses fabricados por eles mesmos.
E nesses altares dourados dos deuses da mentira
O poeta sabe que os trilhos de seus versos seguirão
Imensos e vivos no trem da eternidade! 

FLOR DA PENUMBRA - Ildásio Tavares

Orgasmo, flor da penumbra,
na noite sem geografia;
Rompendo a cor do silêncio;
Despertando as horas quietas,

Um desfolhar de soluços
Em transversais de gemidos,
Desabrochando em prazer.
De corola possuída --

Suas pétalas abrindo-se
À majestade do amor.

CAMPO MINADO - Sérgio Gerônimo

o som deslizou pela pele
cantou três orações em mantra
de uma tecnomissa orgânica

ele estava sendo observado
estranhos corpos desnudos
em movimentos malabaristas
intimidadores desmaios
respiração arqueada
inventei flechas assassinas
atirando em sombras e desvios

houve outro som...
disparei intenções
perseguindo silhuetas e vontades
explodi inseguranças
demarquei limites
ciúmes e invejas

sem tato
rastejando tristezas
por entre armadilhas
e origames falsos
plantei o aviso

meu território é campo minad
o

A FLOR DO SEXO – Rubens Jardim


abaixo do teu umbigo 
existe uma caverna 
de rochas ígneas, 
magmáticas. 
dizem que elas são 
formadas de feldspato, 
quartzo, anfibolitos, mica 
e minerais preciosos. 

mas abaixo do teu umbigo 
eu não encontro nada disso: 
eu vivo a nascente e a foz 
simultâneas

AMOR ITA - Moacir Eduão


O amor nasceu,
semente de pedra.
O amor morreu,
pedra cativa.
A dor não conhece a Lua.
A Lua a emotiva.
É que a pedra não ama
o duro amor que a imita.
É que o amor, das pedras difere,
enquanto é uma pedra escrita,
sem o receio de ser duro
o amor não dura
quando a irrita.
O amor é pedra quando fere
e quando fere a pedra é dita,
porque o amor nunca interfere
na dor que o amor jamais evita.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

ANSEIOS - Rafael Rocha – Do livro ”POEMAS ESCOLHIDOS”

Se eu tiver anseios de voar à lua
Terei de criar um míssil de estrelas
Alçando voo tenho de sabê-las
Para a rima não sair tão crua
Dentro da paisagem noturnal.

Sem a rima farei uma viagem
No farrapo de um velho cometa
Centelhando em busca de uma meta
Do tesouro sem ouro ou miragem
Qualquer coisa natural.

A lua poderá ser o corpo leve
Da mulher que acondicionou
Meu nome, meu sexo e meu amor
Abrindo alas à chuva e à neve
Para a paixão outonal.

De Ícaro ganharei asas modernas
À esta sede de voar na emoção
De uma nova e límpida canção
O tempo novo e as almas hodiernas
Marcam o caminho do final.

Tendo anseios de voar à noite
Com asas macias e mais leves
Da poesia dessas coisas breves
Homem estarei sempre em pernoite
No teu corpo, minha amada casual.

Canta em mim o vício da paixão
E a máxima de quando é se entregar
Na vertigem do prazer de amar
Gosto de perder a razão
E ser eterno, único e total.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

PASSO - Antonio Carlos Gomes

Passo
Sou limitado
Não deixo marcas
Nem saudades
A vida é passar
E evaporar

Quantas espécies
E quantas eras
Passaram
No pequeno mundo?

Não há marcas
Nem saudades

Sem registros
Não há nomes

Sem nomes
Não há passagens

Passo
Apenas passo
Não há porque aparecer
Pois a única realidade
É o perecer

Sem deixar saudades

SE EU MORRER AMANHÃ – Valdeci Ferraz

Se eu morrer amanhã morrerei feliz
Porque minha amada beijou-me a face
E um amigo deu-me um abraço.

Se eu morrer amanhã morrerei feliz 
Porque os meus olhos contemplaram a alva
E a última nota se harmonizou em um acorde perfeito.

A minha fantasia deixo aos loucos
Os meus versos aos excluídos
E o meu sorriso para as carpideiras

Meu corpo inerte guardará todos os segredos
E o beija-flor sugará de todas as flores
As lágrimas que verti pela ausência de alguém

Deitar-se-á comigo a iniludível
E não haverá tempo para um último tango
Porque as mãos sobre o peito já não poderão falar.

Se eu morrer amanhã morrerei feliz
Porque a noite sempre será a minha amiga
Sua voz estará sempre sussurrando ao meu ouvido:

- Valeu poeta!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

INSTITUTO DE LETRAS - Priscila Fernandes


As mulheres do instituto de letras
têm voz de canivete.

As mulheres do instituto de letras
da Universidade Federal
têm muito a gritar.

As mulheres do instituto de letras
da Universidade Federal da Bahia
morrerão um dia desses:
de câncer na garganta.

Como tem mulheres!
Como são das mulheres as letras,
a palavra, os ganidos.

Não sei como ainda restam vidros
e ouvidos
àquele bendito instituto.

CANTIGAS DE CABARÉ – Vânia Melo


Beijava a cara com um jeito de louco
Envolvia nas pernas, assim meio torto
Falava ao ouvido um segredo rouco
Suado, calado, caia meio morto

Fazia juras ocultas, assim meio bobo
Apertava malvado, batia um pouco
Como quem nada quer olhava seu braço
E com um gesto grosseiro jogava o laço

Pouco a pouco se ia no mesmo passo
Deixava um trocado e se ria palhaço
Saía contente, bêbado, em descompasso

Ficava sozinha, ligava a vitrola
Ouvia cantigas e cantarolas
Que falavam de mar e iam embora.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

PASSO PASSARÁ - Clodair Eduão Farias

Passa ano, morre ano
passos na estrada
pés no caminho
nova caminhada.
Viver novas horas 
sentir mudança nos dias
e agora as histórias
corre atràs das correrias.
Geração de quê?
fazer e desmanchar
nada de concreto
tudo pra consertar.
Abrir cacimbas
encher cabaças
um rio em correnteza
esperteza e trapaças.