domingo, 21 de setembro de 2014

Velho tema - Vicente de Carvalho

I

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
  
II

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.
  
III

Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.

Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...

Por quê?  Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.
  
IV

Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades que sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.

V

Alma serena e casta, que eu persigo
Com o meu sonho de amor e de pecado;
Abençoado seja, abençoado
O rigor que te salva e é meu castigo.

Assim desvies sempre do meu lado
Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
E assim possa morrer, morrer comigo
Esse amor criminoso e condenado.

Sê sempre pura!  Eu com denodo enjeito
Uma ventura obtida com teu dano,
Bem meu que de teus males fosse feito".

Assim penso, assim quero, assim me engano
Como se não sentisse que em meu peito
Pulsa o covarde coração humano.

Meu ser evaporei na lida insana - Manuel Maria Barbosa du Bocage


Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

No mapa - Oliveira Silveira

Pelo litoral
ficou
de norte a sul
nagô.
Ficou no Recife:
xangô.
Na Bahia ficou:
candomblé.
No Rio grande é o que?
- Batuque, tchê.

Filho de santo
de bombacha,
Ogum
comendo churrasco:
jeito
gaúcho
do negro
batuque.

O último recado antes do inverno - Francisco José Viegas

O tempo vai passando. Vamos morrendo devagar,
subindo o rio, descansamos sob os choupos,
as vinhas escurecem com a luz do dia.
Muitas vezes, nesta altura do ano, não chega a amanhecer,
a água do rio turva rente às margens,
os areais prolongam-se, claros demais, brancos.

O tempo vai passando entre a erva,
emudece como o musgo do Outono nos pinhais,
escuta as vozes poisando mais além, entre os canais

onde a morte aguarda, serena. Amo estas árvores,
é o último recado que gostaria de deixar,
mais que as mulheres que me amaram,
ou que amei. O tempo vai passando devagar.

Soneto da morte - Gabriela Mistral

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido,

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

sábado, 13 de setembro de 2014

Pétalas - Rafael Rocha

Abri as portas e as janelas de minha moradia interior
E a luz do sol invadiu os interstícios do lugar
A poeira da rua circunavegou sobre os móveis da sala
Uma música mal comportada trouxe uma dança
Das vozes dos antigos e perdidos elos do meu tempo
Dando-se a discutir os caminhos inadequados
Gritando refrões sentimentais e lirismos insanos
De sonhos despedaçados.

Não mais era a solidão de pessoas e de lugares
Era nesse momento a solidão de mim mesmo
Penetrando nas frestas das janelas e das portas
Desprezando as rimas dos poetas estranhos
Como o eu de mim para o eu dos outros
Só abri as portas e janelas para alinhavar paixões
E elas resolveram chegar com as loucuras
Das mais antigas ilusões.

Presumi no instante das portas e janelas abertas
A verdade escondida no âmago dos desejos
Fúteis e antiquados como aquele mesmo de ontem
Quando beijei pela primeira vez uma mulher
Na esquiva sombra de uma árvore velha
Sentindo o corpo quente a se enovelar no meu
Despertando com vento e sol e noite e chuva e sexo
O meu coração ateu.

Nem sei se dá tempo ainda de abrir novas portas
Nem sei se dá tempo ainda de abrir novas janelas
Hoje vejo apenas a poesia das ilusões mortas
Desgarradas no chão da vida como velhas pétalas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ó, como te amo - Carolina Coronado

(Trad. de J. G. de Araújo Jorge)
 
Ó, como te amo! Como a luz do dia!
Teu nome invoco, apaixonada e triste,
e quando a noite veio, e tu partiste,
minha alma em ânsias ainda te pedia!
 
És para mim o tempo que me guia,
a ideia que ao meu pensamento assiste,
porque em ti se concentra quanto existe:
a esperança, a paixão, minha poesia.
 
Não há santo que iguale em pensamento
 o teu amor, se sonhas e deliras
 num doce instante de arrebatamento...
 
Tremo ao te ouvir. Se me olhas tu me inspiras!
E quisera exalar o último alento
abrasada ao calor do ar que respiras.

Mais do que a luz - Ramon de Campoamor

(Trad. de Aristêo Seixas)
 
Mais do que a luz da inteligência humana,
 adoro a escuridão do meu desejo;
sobre a verdade, pois, do quanto vejo,
 quero o erro da esperança que me engana.
 
Tendes razão, formosa Soberana,
 que em duvidar e crer muito sobejo:
se hoje da crença o vasto império rejo,
 amanhã sofro a dúvida tirana.
 
Entre crer e não crer, passo, indeciso,
 pela vida, perpétua no quebranto,
 que anda a ceifar e foge de improviso.
 
O duvidar e o crer confundo-os tanto,
que umas vezes meu pranto acaba em riso,
e outras vezes meu riso acaba em pranto.

O touro - Miguel Hernández

(Trad. de Delson Tarlé)
 
Como o touro, nascido para o luto
e a dor, eu, como o touro, estou marcado
por um ferro infernal em meu costado,
a alma em fogo, no ardor de um corpo bruto.
 
Como o do touro, fica diminuto
todo o meu coração desmesurado,
 e, do teu beijo sempre enamorado,
 eu, como o touro, teu amor disputo.
 
Avulto, como o touro, ante o castigo. 
No coração, na boca ensanguentada,
 na cerviz, há trovões reboando em coro.
 
Como o touro, te sigo e te persigo,
e deixas meu desejo numa espada,
e eu, trôpego, agonizo, como o touro.

À paleta - Rafael Alberti

(Trad. de Xavier Placer)
 
A ti, infinita face, chão semeado
onde ceifa o pincel, resume, amassa
e onde entre cor, luzes e sombras, passa
de mar radioso a um tempo então nublado.
 
A ti, poço e coberta, onde assomado
 medita, vem e vai, mede, compassa;
 fronte na mão pousada que ultrapassa 
teu ver de Polifemo enamorado.
 
A ti, asa redonda, leque, escudo,
espelho que ao vestir queda desnudo
a superfície novamente pura.
 
Em ti a visão se apura assim que nasce.
Teu firmamento o arco-íris pasce.
A ti, leito e cadinho da Pintura

Na estação central - Edwin Morgan

(Tradução de Virna Teixeira)

Na Estação Central, no meio do dia
uma mulher está mijando na calçada.
Com as costas para a parede e as pernas afastadas
ela inclina-se, o cabelo caindo sobre o rosto,
a saia sombria e o casaco nem sequer levantado.
Sua urina bate na pedra com força
e corre em direção à sarjeta.
Ela não é velha, nem jovem,
não é suja, tampouco limpa,
nem em trapos, mas naquele caminho.
Ela está no centro da cidade, o fantasma no banquete.
Executivos saindo do trem de Londres
assustam-se incrédulos mas pulam o rio
e mansamente juntam-se à fila do táxi.
A gente de Glasgow passa apressada,
mal olha, ou se atreve a olhar,
ou olha severamente, atrevida, como
o olhar do poeta, não duro como o aço
mas severo, rápido, diminuindo o passo
um pouco, registrador maldito, seus sentimentos
tão confusos como as folhas de novembro.
Ela é uma estátua em um redemoinho,
surrada por nada que ele possa dizer em palavras,
sangrando nas ondas de conversa
e transita fluidos terríveis de necessidade.
Somente dois homens francamente param,
com um sorriso largo, jogam-lhe um insulto
enquanto cruzam a rua para apostar no jogo.
Sem eles a indignidade,
a dignidade, seria incompleta.