domingo, 9 de setembro de 2018

DE_CADENCIAR – Walter Ramos

Fita vivamente a luz que imita o alabastro.
Viste pontos de fuga na fugacidade noturna;
entrelugares, risos em coro, divas de bronze,
pernoitadas nos lupanares - mobílias ocultas.
Urge a dor galopante a devorar as deidades.

Um quarto de tuas noites reservas à loucura;
na loja medíocre, confrades da mendacidade
sorvem torpores, vertem blasfêmia e espuma.
Carcaças vis morfadas em estátuas de Crack;
vagueiam cães no entorno das mesas chulas

mendigam as migalhas, habitam em angústia.
Saíste à tarde, não avisaste quanto a demora:
apearias a aurora, no bairro da Vista Obscura.
Fabularias sobre arte, morte; o mito de Marte.
& amanhecerias insone,
numa roda de putas.

CAMINHÃO DE MUDANÇA – Jessier Quirino

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:

Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse esfaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retraio olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:

Um emoldurado de retraio com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.

ENCRUZILHAMENTO DE LINHAS – Felipe D’Oliveira

Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a  espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.

AFRODITE – Dora Ferreira da Silva

Disse a deusa a sorrir:
esta manhã o mar deu-me adereços
e vestida de pérolas
fui a um reino distante.
Cânticos despertaram vides
e frutos nasceram, que o sol
cultiva nos pomares.
Coros adolescentes perseguiam Eros
- o coroado de pâmpanos -
pois de meus lábios haviam provado ,
o vinho farto e suave.

Liames atando e desatando,
ele a beleza ocultava nas angras mais profundas,
pois quando emergia - flâmeo! -
o murmúrio do mar as praias inundava
e a embriaguez vizinha da morte
ameaçava os amantes...

- Dora Ferreira da Silva, em "Talhamar". São Paulo: Massao Ohno, 1982.

BICHO SOLTO – Cristiano Ottoni de Menezes

Não me cobre a linha reta
busco melhor traçado
não somos dois pontos
 nosso encontro é ao acaso
não tenho hora
às vezes me atraso
perco tempo
acho curvas
atalhos
passo ao largo
do óbvio
caminho
que nunca me levará
a você

SEMPRE CAMINHE – Antônio Carlos Gomes

Todos os caminhos são possíveis.
Todos os caminhos são limitados.
Não deixe de caminhar.
Caminhe!
Quando um caminho terminar
Comece nova jornada,
Mas saiba:
Nenhum caminho leva ao Paraíso!

sábado, 8 de setembro de 2018

DECADÊNCIA – Fernando Fortes

As valsas são velhas rosas loucas de orvalho
girando no jardim do orgulho
as pétalas vertiginosas
que sangram pelas caudas dos vestidos
em hemorragias de rendas
Saudosas da cadência dos veludos
em demências deliciosas

As valsas são vaias do vento
na saída da tempestade

Lá fora bailam crianças
no corrimão das varandas
as tranças das samambaias

ALMA SIMULTÂNEA – Daniel Lima

Tenho qualquer idade em qualquer tempo:
velho agora e menino logo adiante;
aqui jovem e depois homem maduro;
às vezes nem nascido, às vezes morto.

A idade em mim rebenta impetuosa
não do tempo existido, mas das coisas
que me criam, e também que são criadas
pelo que sou e sinto em face delas.

Menino e velho sou, não sucessivo,
mas simultâneo a cada sentimento
- múltipla idade de uma alma múltipla.

Às vezes já estou morto há muitos anos,
muito depois e frio; mas às vezes
sinto que vou nascer, sinto-me antes.

POESIA – Boris Pasternak (1922)

Tradução de Haroldo de Campos

Poesia, minha voz enlouquece
De juras sobre ti, estertor,
Não pose melíflua de cantor.
Vagão de terceira no verão,
Pareces. Subúrbio e não refrão.

Abafas como Iamskaia: (1) és maio,
Chevardin,(2) o reduto noturno,
Onde nuvens exalam seus guais
E se vão, cada qual por seu turno.

E em dobro, pela trama dos trilhos -
Arrabaldes não são estribilhos, -
Se rojam das estações a casa,
Não cantando, formas hebetadas.

Renovos que a chuva põe nos cachos
Até de manhã, num fio contínuo,
Pingam seus acrósticos do alto
Enquanto lançam bolhas de rimas.

Poesia, quando sob a torneira
Um truísmo é um balde de folha
Vazio, mais o jato se despeja.
Eis o branco da página: jorra!

Notas do tradutor:
Em muitas cidades russas havia um bairro chamado Iamskaia pobre e abafado (1).
Chevardin é o nome da aldeia onde, em 24 de agosto de 1812, se desfechou a campanha de Napoleão contra a Rússia (2)..



SONETO DA FIEL INFÂNCIA - Ribeiro Couto

Tudo que em mim foi natural -pobreza,
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa-
Dói na saudade mais que então doía.

Da lamparina do meu quarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.

Altas horas, rezando no seu canto,

Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.

Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.

CONFRARIA – Sérgio Luiz Moreira

Procura a mão, o objeto, num momento,
ao encontrá-lo vai torná-lo mágico,
ao segurá-lo, vivo, leve ou trágico
vau, canalizador do pensamento.

Em perfeita harmonia, mão e pena,
a poesia se escreve a tinta e sangue.
E será rubra a rosa mais exangue,
mais doloroso o amor fora de cena,

e mais azul o azul real do céu,
a morte, vinte vezes mais cruel,
a fantasia, do exato, negação.

Deslizando no branco do papel,
pulsando como pulsa um coração,
é a caneta ele próprio, em minha mão.

ROSA MURCHA – Ulysses Lins de Albuquerque

Como outrora eu te vi, graciosa e bela.
- Rosa humana de sonhos orvalhada!
Eras um misto, assim, de dor e estrela,
Irradiando o esplendor de uma alvorada.

Foram os anos perseguindo aquela
Rara beleza, aos poucos desgostada.
E à ação do tempo o encanto se esfacela
- Ah, murcha rosa! – e tudo em breve é nada!

Perfumaste de amor o meu caminho
No róseo quadro em que era um sonho a vida
Para mim junto a ti. Pior sem espinho!

- Ilusão da perdida mocidade!
Minha alma ainda te beija, enternecida
E hoje sente um espinho – é o da saudade.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

ESSA PARTE TUA QUE É MINHA – Josyra Sampaio

Essa parte tua que é minha
tão pouca mas tão tua
quero completamente
minha
 
Esse pedaço de ti
é tão meu
quanto eu sou toda tua

DENTRO DA NOITE, PENSO EM TI – Leontino Filho

Volta e meia
sigo rumo à ilha do amor
coisas antigas que ficaram
nau perdida no porto abandonado
barco sem vela
que persiste no desenho
formado pelas águas dos rios.

Volta e meia
o fluxo de imagens paira sobre as águas
e sigo devorando
a cauda dos sonhos
retornando ao chão descontínuo da ilusória
estrada do bem querer:
uma outra história.

Volta e meia
o amor perturba o sono descontente das estrelas
e o luar embaraçado
por tantos murmúrios
arma a provisória tenda da paixão:
o meu olhar de neblina
costurado na memória
tece a infância medieval
do teu corpo.

NA SOMBRA – Mansueto Bernardi

Este amor que em mim vibra e que ela não conhece,
este amor que tem toda a aparência de um crime,
pois que vibra na sombra e é na sombra que cresce,
este amor, mesmo assim, é sagrado e sublime.

Filtro que me envenena e hóstia que me redime,
grito que é, ao mesmo tempo, imprecação e prece,
amor humilde e triste, amor de quem padece...
Quero, em vão, exprimi-lo! Este amor não exprime.

Adoro-a! E eis-me a viver, no entanto - ó escárnio eterno! -
dantescamente assim atado a esta cadeia,
com os olhos no céu e os pés dentro do inferno.

E quando assim, da sombra, acaso logro vê-la,
cego ser e não vê-la, eu preferira: sei-a
(e o meu braço é tão curto!) alta como uma estrela!

VOLTA – Xavier de Carvalho

Por desertos, por íngremes terrenos,
Fui um dia aos serões desta Ansiedade
Ver se ainda ouvia um só gorjeio ao menos
Do bando exul das aves da Saudade...

Debalde eu fui! O horror da tempestade
Tombando como pérfidos venenos
Dos amplos céus de minha Mocidade
Matara de uma vez todos os trenos...

Do alma horizonte pelas grandes curvas
Vi apenas milhares de aves turvas
Numa expansão dantesca de asas tortas...

E eu voltei... E ao chegar da casa em frente
Vi cair, aos meus olhos de Doente,
Um triste bando de andorinhas mortas!

(Missas Negras/1902)

BALIDO – Adélia Prado

Setenta anos redondos,
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mão não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.

Do livro A duração do dia.