domingo, 9 de setembro de 2018

CAMINHÃO DE MUDANÇA – Jessier Quirino

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:

Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse esfaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retraio olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:

Um emoldurado de retraio com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.

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