sexta-feira, 5 de abril de 2019

POUCA ROUPA – RAUL PEDERNEIRAS

- É - moda a comprida sóla
num salão ou numa rua,
mas é costme, na praia,
que a dama saia sem saia,
em prestações quasi nua...

Se vai sentada no bonde,
aparenta um ar sizudo
puxa a saia, a perna esconde ...
Mas, na praia e não sei onde,
mostra a perna e quasi tudo ...

Na rua enrubece, cora,
se um nada ofende a figura;
- isso é por ora, ou por hora,
- compostura é cá por fora,
- na praia é descompostura

O novo costume insosso
progride de dia em dia
e aumento mais o alvoroço,
porque o nu em carne e osso
exige fotografia.

Muitas damas, nas revistas,
em grupos bem detalhados,
mostram-se quase nudistas,
aguçando mais as vistas
dos velhos desamparados ...

Com tal gosto manifesto,
não deve a dama ter gana,
se a gravura der no texto:
- "As lindas coxas e o resto
da senhorita Fulana”.

Como o tempo é de expansão,
há fundadas esperanças,
do nu entrar em salão,
uma vez que os nus estão
expostos nas
vizinhanças...

Que vale o traje comprido
se
o recato nunca poupa?
- Acho muito divertido
trazer na rua escondido,
o que já vimos sem roupa ...

segunda-feira, 1 de abril de 2019

MONÓLOGO MUNDO MODERNO – Francisco Anysio

E vamos falar do mundo, mundo moderno
marco malévolo
mesclando mentiras
modificando maneiras
mascarando maracutaias
majestoso manicômio
meu monólogo mostra
mentiras, mazelas, misérias, massacres
miscigenação
morticínio, maior maldade mundial
madrugada, matuto magro, macrocéfalo
mastiga média morna
monta matumbo malhado
munindo machado, martelo
mochila murcha
margeia mata maior
manhazinha move moinho
moendo macaxeira
mandioca
meio-dia mata marreco
manjar melhorzinho
meia-noite mima mulherzinha mimosa
maria morena
momento maravilha
motivação mútua
mas monocórdia mesmice
muitos migram
mastilentos
maltrapilhos
morarão modestamente
malocas metropolitanas
mocambos miseráveis
menos moral
menos mantimentos
mais menosprezo
metade morre
mundo maligno
misturando mendigos maltratados
menores metralhados
militares mandões
meretrizes marafonas
mocinhas, meras meninas,
mariposas
mortificando-se moralmente
modestas moças maculadas
mercenárias mulheres marcadas
mundo medíocre
milionários montam mansões magníficas
melhor mármore
mobília mirabolante
máxima megalomania
mordomo, mercedez, motorista, mãos
magnatas manobrando milhões
mas maioria morre minguando
moradia meiágua, menos, marquise
mundo maluco
máquina mortífera
mundo moderno melhore
melhore mais
melhore muito
melhore mesmo
merecemos
maldito mundo moderno
mundinho merda!

IDEALISMO – Augusto dos Anjos

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu fulcro -

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

quinta-feira, 28 de março de 2019

O MAL E O SOFRIMENTO - Leandro Gomes de Barros

Se eu conversasse com Deus
                                      Iria lhe perguntar:      
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

terça-feira, 26 de março de 2019

SOLIDÃO - Friedrich Wilhelm Nietzsche

Tradução de Wagner Schadeck

Vão corvos crocitando
Para a cidade em voo circular:
Logo estará nevando –
E bem-aventurado quem tem lar!

Altivo, olhando outrora
Teu passado não volta num segundo!
Quem és – um louco que ora
Antes do inverno fugirá do mundo?

O mundo – uma saída
Aberta para um ermo horrendo e agreste.
Não pode achar guarida
Aquele que perdera o que perdeste.

Com palor de desgraça,
A viagem hibernal tens desdenhado,
Semelhante à fumaça
Evolando para o orbe regelado.

Entoa, ave, teu canto
De pássaro no seu errante anelo! –
Louco, escondes, no entanto,
Teu coração sangrando em pasmo e gelo.

Vão corvos crocitando
Para a cidade em voo circular:
Logo estará nevando –
E bem-aventurado quem tem lar!

PERTO DO CORAÇÃO – Johan Wolfgang von Goethe

Tradução de Wagner Schadeck

Eu penso em ti, ao refulgir
o sol no mar;
Eu penso em ti, ao ver fluir
no rio o luar.

Na poenta senda do horizonte,
vejo teu trilho,
enquanto à noite, sob a ponte,
dorme o andarilho.

Ouço-te, quando a vaga vence o
penhasco rude;
quando na floresta o silêncio
é plenitude.

Eis-me contigo, e ora distante
tu não te evades.
Posto o sol, com o céu cintilante,
sinto saudades!

ABISAG – Rainer Maria Rilke

Tradução de Décio Pignatari

1.
Sobre. Servos, seus Braços, Meninice,
Fizeram enlear no Corpo augusto,
De Bruços. Horas mortas, que Velhice!,
não podia reter o Medo e o Susto.

Virava, revirava, (Barba), o Rosto,
a cada Pio de Mocho. E todo o Meio
da noite distendia-se, disposto
a vê-la, Medo, e a envolvê-la, Anseio.

Tremeram as Estrelas, suas iguais,
um Sopro abriu, sagaz, o Cortinado,
(e um Ar insinuou-se perfumado)
atraindo os seus Olhos com Sinais.

Mas ela, ao Rei sombrio, fiel se prende
e, salva da pior das Noites, calma,
na Realeza fria a Pele estende,
virginalmente leve como uma Alma.

2.
Soberano sem Gozo em Dia vazio,
e sem Feitos, o Rei medita
em sua cadelinha favorita.
A Noite vem: arqueia-se no Frio
o Corpo de Abisag. Da Vida os Leitos
são Costas de má Fama, Orla maldita
sob a mortal Constelação dos Peitos.

Mas, versado em Mulher e seus Desejos,
julgava ver, às vezes, (Sobrancelhas),
uma boca suspensa, Flor sem Beijos
– e via: para as suas Lavras velhas
não se inclinava a Haste amorosa, langue.
Insone, via-se Mastim, Orelhas,
Buscando-se nas So(m)bras do seu Sangue.

segunda-feira, 25 de março de 2019

A TAÇA DO REI DE TULE – Júlio César da Silva

I
Trêmulo, as barbas úmidas de choro,
No fim da vida, o Rei de Tule, um dia
Tirou a taça pela qual bebia
Do cofre onde guardava o seu tesouro.

Era essa a joia de maior valia;
E ante os nobres e gentes do seu foro
Ao mar lançou a linda taça de ouro...
E minutos após, o Rei morria.

Se essa taça continha algum arcano,
Hoje somente é o mar quem lho devassa,
Porque ela jaz no fundo do oceano;

Beija-a, somente, arfando, a água que passa...
E hoje ninguém, lábio nenhum profano
O vinho prova por aquela taça...

II
Quando me chego a ti, por mais que faça
Por conter dentro de mim este alvoroço,
Sinto que sou, sem reino e embora moço,
O Rei de Tule, e tu, a minha taça.

Dos teus lábios ninguém hoje devassa
O fundo senão eu; e enquanto posso,
No mel que eles contêm, os meus adoço...
Mas por fim tudo cansa e tudo passa.

Não poder, como o Rei, no fim da vida,
Ante os meus cortesãos, jograis e sábios,
Lançar ao mar também, taça querida,

Para que ninguém mais sinta os ressábios
Dessa bebida por mim só bebida
Pela taça vermelha dos teus lábios!

ÁGUA LIMPA – Adalberto de Queiroz

Se da água limpa dos rios,
o poeta alcança - incólume
as fontes d agua viva...

                      Oh! claro lume:                     
bebe em sanga clara.

Bebe c'o as mãos
na vertente rara
sequioso estro.
Não se abaixa
A flor d'agua,

Feito um cão:
Lambendo a água.
Agora, o poeta é
De Ottoniel, soldado
Não colhe a água
na palma da mão.
Pronto pra guerra,
bebe e proclama:
— Eis a Água!

Água da chuva sempre exata.
Água da fonte sempre basta
A água que a todo fogo apaga
Água límpida: minha sede mata.

quinta-feira, 21 de março de 2019

PERORAÇÃO - Goliarda Sapienza

Tradução de Valentina Cantori

Não gastes a quentura do teu púbis
não prendas o teu passo em saias justas
de seda turva, mas deixa por favor
teu cabelo acender-se pelo sol
que foge virando atrás do muro.

Não te quero surpreendida pela lua
descobrindo-te forçada numa noite
a gritar arrependida num tal rosto
de senhora ressecada sobre o teu.

SALMO – Paul Celan

Tradução de Matheus Guménin Barreto

Ninguém nos molda de novo da terra e do barro,
ninguém conjura o pó nosso.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor a ti queremos
florescer.
Ao encontro
de ti.

Um nada
éramos, somos, seremos
ainda, a florescer:
a Rosa-de-Nada, a
Rosa-de-Ninguém.

Com
o almacândido cálamo,
o ermoceleste filamento,
a rubra coroa
do verbo purpúreo, que cantávamos
sobre, oh sobre
o espinho.

quinta-feira, 14 de março de 2019

VELÓRIO – Valdeci Ferraz


Ver-me-ão morto no caixão a sorrir
E dirão, talvez, leve lhe foi a vida
Ou as flores que estão a lhe cobrir
Fazem-lhe cócegas na despedida?

Homenagens? Eu não quero ouvir
Nem canto, nem mesmo reza sentida
Cubram-me de cravos brancos e a seguir
Leiam meus poemas na hora da partida

E quando à terra fria eu descer
Muitos olhos marejados hão de ver
Meus versos espalhados pelo mundo

Saberão que fui apenas um poeta
Cuja vida sempre foi uma porta aberta 
A viver o sentimento mais profundo.

GARGALHADA – João Guimarães Rosa

Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...

CANÇÃO DOS PUNHAIS APAGADOS – Hunald de Alencar

Dentro do peito eu tenho
quarenta punhais apagados:
sementes de aço na carne
de fruto ou sol esperados
                                                                                               
Eles nasceram das lágrimas
demais pra serem choradas
e no tempo é que fundiram
sua metálica geografia

Dentro do peito eu tenho
quarenta punhais apagados
tatuando de esperança
a pele das agonias

Eis que a hora de acendê-los
sabem os olhos guerrilheiros
abertos nos punhos fechados
Eis que a hora de acendê-los
revelarão os espelhos
do homem multiplicado.

VAIDADE – Florbela Espanca

Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profana e insatisfeita!

Sonho que sou alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quanto mais no céu eu vou sonhando,
E quanto mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!