sábado, 7 de dezembro de 2019

OUVE – Gilson Pereira de Araujo

Haverá sempre um ouvido a ouvir
As queixas que deixas a preencher o vazio.
Não serão vãos teus lamentos, perdidos
Na distância que te afasta de quem te quer ouvir.
Preencherão o espaço, invisível aos olhos
Que se alegram no que se dissipa à flor dos lábios,
Mas persistem naqueles que enxergam almas
Nas vozes que galopeiam os sentimentos a vagar.

Dói-me tua ausência, que se firma a cada dia,
A desenganar-me da esperança que se oferece
Sem que se faça real, do sonho que alimento,
O passado que amo e que presente quero.
Ouvidos ouvem os gemidos de minh’alma,
Como se nada fosse dito no silêncio que alimento.
Parece-me vão o sentimento sentido em teu louvor.
E, desejo o silêncio que se deseja por eterno.

O caminho, inevitavelmente, só estreita e encurta
E o passado é lembrança que não se goza estando só.
Acompanham-me passos de um caminho sem começo
Que não me acompanham nem me causam tropeço,
Seguem a mesma trilha sem que me mostre o rumo,
E, assim, sigo insano em permanente prumo.
Ouvidos ouvem, dessa dor, inerte, o vão lamento
Sem que o coração sinta a causa do sentimento.

INFÂNCIA – Lucia Hazim

Não deixaram palmo sobre palmo
Cavaram e destroçaram o solo.
E as cabras baliam entre
as entranhas das casas.
Os bárbaros!

Deus havia olvidado seu povo.
Esquecido que um dia palmilharam
a cidade das tamareiras nos dias de Josué.

Então pusemo-nos a caminho
e partimos.
Digo-vos, pois, sob a fé
daqueles que nos antecederam.
Que antes de havermos cruzado
o chão de Nápoles e Roma.

Onde aprendemos
uns mágicos vocábulos.
Era já chegada a primavera.
E passamos a nos abastecer
de frutas e verduras.

Através de uma cestinha
suspensa no ar. Em sua frágil
viagem — para cima e para baixo.
Quase uma história medieval

Digo-vos, pois, outra vez
Não sei de crianças com faces
mais rosadas — e luxo maior.

Um dia, a mulher desceu os sete
lances de escada. E comprou
vestido ornado de renda
para cada uma das meninas.

Um anjo havia passado
E nem percebeu.

Entanto nunca hei de esquecer a beleza
peregrina desta
fábula.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

AS CIDADES - Juareiz Correya

As cidades são pessoas.
Assim crescem e vivem
À luz dos nossos olhos
E no coração do sangue.
Habitam nossa alegria
E nossa dor.
Por um momento
Se perpetuam em nós
E somos
A própria imagem e semelhança
Do que nunca morre.
Também se apequenam
E se apagam
Como um tempo perdido
E o avesso da humana verdade:
Vivendo a vida sem ter vivido.

AMORES IMPOSSÍVEIS – Maristela Freitas

O pragmatismo do amor expulsa a ilusão. 
Para cada passo dado, cada olhar arrancado  
o tempo não será lembrado. 
Para cada degrau subido, 
o tempo será esquecido.  
A paixão queima as águas do desejo.  
Para amores impossíveis, o tempo atrasa a estação.  
Tento segurar o amor mas ele foge das minhas mãos.  
Na verdade, ele não existe. 
Mas quando um amor tem de ser, ele acontece
sem precisar de paredes ou intermediários.  
Ele vem correndo pelos vasos sanguíneos da vida.

FALANDO EM LIBERDADE - Eliakin Rufino

Eu falo de liberdade
como quem fala de pão
de algo que se reparte.

Eu falo de liberdade
como quem fala de arte
de algo que se inventa.

Eu falo de liberdade
como a dos anos sessenta
"faça amor, não faça guerra".

Eu falo de liberdade
como quem fala da terra
a que todos têm direito.

Eu falo de liberdade
porque carrego no peito
uma flecha atravessada.

Eu falo de liberdade
como quem fala de amor
para a pessoa amada.

RETRATO - Helena Parente Cunha

de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui

quem aparece
onde pareço?

pouso de passagem
na fotografia

atrás do quadro
que me contorna
desapareço

quem comparece
na própria face?

poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)

de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato

PENHOR – Walmir Ayala

Quanto pode valer um pássaro
de canto puro e goela solta
que gosta de carícia e se espreguiça
como qualquer amado amante?

O dono levou-o à penhora
por trinta e oito mil
cruzeiros. Diz
que vale o dobro.

Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos
diz o causídico do banco, e chama de brincadeira
esta causa de tão pessoal alcance.

Falando por seu advogado
o dono do pássaro diz
que o assunto é muito sério
e pede mesmo que o pássaro
seja tratado com carinho
pois cantando e recebendo amor
é que se prova valioso.

Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,
mas o miolo é pura
poesia.
Difícil é contar como canta o pássaro.
Aí é que seríamos sublimes.

OS USOS DA ADVERSIDADE – Vasco Graça Moura

os usos da adversidade
de repente, é este o uso da adversidade:
as crianças que ficam aprenderam a matar,
no brasil, em angola, na bósnia, em moçambique,
usam a adversidade como uma faca assassina,

de repente uma urgência, um rebate de sinos,
cidades destruídas casa a casa e corpos
e armas abandonadas e incêndios e
silêncios no silêncio, rumores de pó, mais corpos.

usam a adversidade como uma carabina.
de repente os motores de um avião que parte
a sua sombra pousa como a asa do destino
nas oliveiras feridas de ruína em ruína

e o ruído que faz nestes montões a morte
como se morrer fosse uma cava rotina.

domingo, 1 de dezembro de 2019

O VIOLINO DO ARTISTA - Dunshee de Abranches

Só lhe restava o mágico violino
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.

Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era "mais do que humano, era divino!"

E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!...

Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo... mas ah! tinha a alma surda...
já não sentia o mísero instrumento!...

MORS-AMOR - Mansueto Bernardi

Quisera ser o teu caixão, rainha!
Abrir-me, receber-te e após, fechado,
guardar, numa essa, a glória, linha a linha,
do teu divino corpo amortalhado.

E em meio à pompa do ritual sagrado,
eu, tronco vil, de condição mesquinha,
contigo celebrar o meu noivado...
Saber-te minha, inteiramente minha!

Sentir-te! Amar-te sempre! E, face a face,
que o nosso estranho amor, fria consorte,
onde tudo termina, principiasse!

E, ó volúpia sem fim! no último abrigo,
na quieta alcova conjugal da morte,
a pouco e pouco me fundir contigo...

O VERSO QUE SAI DO MEIO DA BOCA – Karla Celene Campos

Poemas não feitos não surtem efeitos
São beijos não dados
Passo de dança
Paralisados
O verso que sai do meio da boca
É beijo na boca
No meio da noite
Na boca da gente
É estrela cadente
No céu da boca
Na boca da noite
Na palma da mão
Aprecie sem moderação

AS PALAVRAS – Eduardo Dall’Alba

As palavras, como as sementes
devem plantar-se em terra boa.
E se espalhar a toda gente
ou perdê-las no fino da garoa.
As palavras, como as sementes
devem plantar-se em terra arada,
para que o broto mesmo ingente
possa brotar do sal da terra
e assim semente, ao ver-se semeada
como ao discurso da palavra usada,
como a palavra em poema.
As palavras, colhê-las como as uvas
na hora precisa, no poema certo.
Sugar-lhes o líquido sagrado
do sentido, até que fartos
do discurso e embriagados de palavras
durmamos o sono simples dos mortais
sem nem sentido precisarmos mais.

MAIO – Adelmar Tavares

Que sensações estranhas, esquisitas,
como um desejo de também ter asas,
para ser como os pombos sobre as casas,
toda vez, Maio em flor, que me visitas !

Tu, minh'alma, na dor em que te abrasas,
dentro da escuridão em que te agitas,
és um solar de aparições malditas,
uma lareira onde morreram brasas.. .

Maio, carregas mágoas e venturas,
flores aos laranjais e às sepulturas,
fecundas cravos e fecundas goivos...

Atêas tanto das paixões as chamas,
quanto de fria solidão derramas,
dentro dos corações que foram noivos...

VELÓRIO – Adelaide Lessa

Dei farol baixo sobre o peso morto
abandonado num caixão de ripas
sem tampa e sem adeus de flor-de-estrada.

Nenhum irmão de luto, ou caridade
de velas que fingissem companhia,
anônimo em seu câmbio transumano.

Só teve as ripas sob o corpo findo,
sem um cavalo que o jogasse à vala,
fadado às chuvas, bichos, ventania.

Imune a padeceres e agonia,
estava solto, de alma viva e quente
em vôo acima do capim cidreira.

Achei de lhe dizer, solenemente,
o trinta e dois, um salmo-profecia
"Tu me cinges de alegre livramento ...

terça-feira, 26 de novembro de 2019

TUDO PODE SER AMOR - Rafael Rocha

O novo livro do poeta, escritor e jornalista RAFAEL ROCHA intitulado TUDO PODE SER AMOR, prefaciado pela escritora Divina de Jesus Scarpin, já está disponível para ser adquirido pelos leitores. O livro custa R$ 35,00 – já inclusos os gastos com envio pelo Correio. O depósito bancário pode ser feito no Banco Itaú – Agência 7226 – Conta Corrente 20207-0, em nome de Rafael Rocha Neto e enviado o comprovante de depósito para o e-mail jornalhumanitas2013@gmail.com. juntamente com o endereço do comprador.