segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

AGORA AR É AR E COISA É COISA – E. E. Cummings

Tradução de Augusto de Campos

agora ar é ar e coisa é coisa: traço
nenhum da terra celestial seduz
nossos olhos sem ênfase onde luz
a verdade magnífica do espaço.
Montanhas são montanhas;céus são céus –
e uma tal liberdade nos aquece
que é como se o universo uno, sem véus,
total, de nós (somente nós) viesse
– sim; como se, despertas do torpor
do verão,nossas almas mergulhassem
no branco sono onde se irá depor
toda a curiosidade deste mundo
(com júbilo de amor) imortal e a coragem
de receber do tempo o sonho mais profundo

O LAVRADOR – William Carlos Williams

Tradução de  José Paulo Paes

Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março –
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador – compondo
– antagonista

sábado, 11 de janeiro de 2020

LEMBRANÇA DO ADMINISTRADOR DO BLOG


JUSTIÇA POUCA – Paulo Roberto do Carmo

Nenhum homem
há de pesar e medir
a justiça pouca
e proclamá-la
mais que suficiente.
Todo homem
julgado pela consciência
pelos cordeiros do mundo,
há de semear e colher
nas safras a justiça
e apregoá-la
menos que suficiente.
Fica o dito lavrado na pedra,
e intimados
os desvalidos da terra.

DO DESMANCHE - Salomão Souza

Quem não se sente ilustre
visitante com poderes temporários
indo rumo ao fogo sagrado de Héstia
a exigir que gracioso hospedeiro o alimente

Quem não se sente
aéreo parasita quando lhe roça
no rosto o definhar morto
do caule apodrecido

Quem não sente o chamado do monturo
que as fibras se ausentam
que se afasta do sagrado fogo de Héstia
quando se despenca agarrado ao caule morto

Quando evita a tecla de interrogação
só para não ter de dar a resposta
Não ter de fugir da luz
e da demência da migalha

E outro transporte a semente
de crescer o parasita
Será definhado o viço
de outro caule

CANÇÃO DA LIBERDADE – Jacinta Passos

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre, pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo o que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.

          Nada eu tenho neste mundo,
          sozinha!
          Eu só tenho a vida minha.

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver.

          Nada eu tenho neste mundo,
          sozinha!
          Eu só tenho a vida minha.

Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
sua pátria é o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.

          Nada eu tenho neste mundo,
          sozinha!
          Eu só tenho a vida minha.

CAMINHO LONGE - Gabriel Mariano

Caminho
caminho longe
ladeira de São-Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé.
Devia sorrir de outro modo
o Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além

Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São-Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A ABÓBORA MENINA - Ana Paula Ribeiro Tavares

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.


PERCURSO - Nilza Azzi

Fui deixando pra trás os sonhos meus
e assim troquei os passos, fui adiante,
nas escolhas que fiz a cada instante,
nas várias formas de dizer adeus.

E quanto mais sonhei, mais relevante
– ó devaneios pálidos e ateus –
foi a vontade de saber de um deus
que desse a mão ao ser itinerante.

Mas nunca o meu caminho ele cruzou,
para sustar minhas andanças ou
para ajustar meu passo ao paraíso,

ao desapego simples e eficaz,
que o desencanto desta vida traz,
ao despertar mais rápido e preciso.


OCUPANDO MINHA POSIÇÃO - Enide Santos

Estou esgotada de abraçar os meus joelhos.
De pôr-me em xeque, por meus devaneios.
A posição fetal, não será mais uma opção.
Não mais darei esmolas à minha satisfação. 

E só por ser efêmera, serei plena.
Ditarei as regras, moldarei minha arena.
Os meus medos, em abismos viverão.
E eu, apenas recrutarei determinação. 

O passado será meu aliado
O futuro será por mim adotado
Porém será no presente
Que minha posição ficará evidente.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

AS PEDRAS - Maria Alberta Menéres

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

A CALÇADA - Cleonice Rainho

A calçada da minha rua,
de pedra portuguesa,
preta e branca, já se vê,
que é bonita é,
mas não dá pra jogar maré
e eu já descobri por quê...

Tem desenhos lindos:
- Uma estrela que lembra luz
e ilumina meus pés
na sandália que reluz;
- um trevo de quatro folhas
que dizem dar sorte...
Será que dá?
Passo sobre ele
prá lá pra cá.
- Um dragão sossegado
porque não é de verdade.
Se fosse, nos dias de chuva,
saltava da calçada
e ia embora na enxurrada.
Pulo sobre ele: Plim... plom... plão!
Ôi, dragão! Não tenho medo, não!

MORNA - Daniel Filipe

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.

A FERNANDO PESSOA (ELE MESMO) - Reinaldo Ferreira

Cada verso é uma esfinge ter falado.
Mas quanto mais explícito ela o diz,
Mais tudo permanece inexplicado
E menos se apreende o que ela quis.

Erra um sussurro, tão etéreo e alado
Que nem mesmo silêncio o contradiz.
E o ouvi-lo, ou ávido ou irado
Na busca dum segredo sem raiz,

É como se em pensar - um descampado -
Passasse fugitiva e intensamente
O Tempo todo inteiro projectado

E a sombra ali marcasse, na corrente
Do nada para o nada, inda passado
E já futuro, a ficção do presente.

sábado, 4 de janeiro de 2020

REMOINHO – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” (1979)
                                                                                                              
Que país é esse?
Que terra é essa?
Que planeta esse
controlando-me
reservando-me
uma pequena réstia
de sua intimidade?

O medo anda e para:
As mãos dadas com a fome, sua irmã
resumida em tão pequeno espaço.
Mas é tão grande!
Até mata!

O sorriso já é aceitação hipócrita
e adulação faminta
e no local onde existem as mãos
tudo está de completo sem espaços
de pouco conteúdo
no enfrentamento da luta
quando não avisada.

Eis que os Josés se protegem.
Eis que eles se assustam.
E certamente eu mesmo
faço uma comédia
cheia de obediência crônica
(mal de velhos tempos).
Esse temor veio do útero

e anda consigo muito aceito
integrando-se na vida
desde o formato fetal.
José se protege como o avestruz
cabeça enfiada no chão de areia
e torna-se pequeno
(podia-se grande)
com os olhos famintos.
Famintos não só de comida
mas da absoluta gaiola aberta.

Sai andando, homem!
Ponha as bandeiras nas ruas!
Talvez em você um jeito heroico tenha gênese
e que do pão e da poesia que te oferto
abra-se uma janela,
depois uma porta,
e você possa sair às ruas
e exclamar:
- Mas quanta luz e eu aqui na escuridão!

(Se ao menos você tivesse a coragem, José!)

INFLAMÁVEL – Alexsandro Souto Maior

Ninguém me toque
O calor é de queimar os miolos
As palavras apimentadas
Quão gás lacrimogêneo
No meio da multidão
Dispersa a opressão
Há veneno nos meus pés e nas minhas mãos
Há desejos quentes nos meus olhos negros
Falo brasas
Sopro fogo
Aceno dores e flores
Penso paixões e vulcões
Faço carnaval no meio-dia no teu quintal
E motim no centro do Distrito Federal
Já avisei
O que sai de mim é fogo
Ninguém me toque!

ADENTRO – Naomi Ayala

Tradução de Antonio Miranda

A guerra começa aqui mesmo em minha rua.
Começa comigo a guerra.
Vejo suas armas nos olhos de uma criança,
sua cara pelas janelas.
Às vezes quero a guerra.
Deito com ela.
Esfrego as costas dela.
Às vezes se mete em casa
e eu entro com ela.
A guerra se apega ao meu nome.
Levo-a em meu sangue.
Adoça o meu café matutino dos sábados.
Engano-a. Me escondo. Fujo dela
mas já sabe a direção dos meus sonhos
e quer roubar-me os filhos da alma.
A guerra começa comigo.
Comigo mesma começa a guerra,
aqui mesmo em minha rua,
nas pequenas chuvas de balas,
numa lixeira vazia,
no que digo e não digo,
na enredadeira bruxa do tédio,
no sabão que uso para banhar-me.
Levo-a nos meus dedos,
na sombra dos olhos,
no pelo de meu amante.
Canto para que ele me deixe,
para que se vá à guerra.
Hoje eu lhe canto
e me deixa cantar.

O CORVO – Edgar Allan Poe

Tradução de Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranquilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

CHROMO - Ibrantina Cardona


Vem abrindo a alvorada a rósea umbrela...
A formosa aldeã de amor suspira,
e ao meigo namorado um canto inspira,
no fl
óreo peitoril de uma janela...

Distante, pelo mar cor de safira,
traçando à tona d’água uma aquarela,
gaivotas vêm seguindo um barco a  vela...
Na serra, do marujo o canto expira...

E aqui, e ali, na várzea romanesca,
salta o alegre rebanho; um cisne preto
ondula da corrente a veia fresca.
 

Traça ao longe, um pintor esse esboceto, 
e a subir pela encosta pitoresco, 
eu, descuidada, escrevo este soneto.