quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

NÃO PERCA MAIS QUEM TANTO TEM PERDIDO - Garcilaso de la Vega


Tradução de Fernandes Mendes Vianna

Não perca mais quem tanto tem perdido;
baste-te, amor, quanto hei por ti passado;
valha-me agora nunca haver provado
o defender-me do que tens querido.

Do teu templo as paredes hei vestido
de minhas roupas úmidas, e ornado,
como acontece a quem tem já escapado
liberto da tormenta em que há vivido.

Tinha jurado nunca mais meter-me,
por meu poder e meu consentimento,
em outro tal perigo, como vão.

Mas do que vem não poderei valer-me;
e não vou nisto contra o juramento:
nem este é igual, nem está em minha mão.

DESCARTES - Eeva-Liisa Manner

Eu pensava, mas não existia.
Eu disse que animais eram máquinas.
Eu perdera tudo menos a razão.

Dê meus parabéns a todos
cujo conhecimento é secreto –
Paracelso, Swedenborg e os cavalos matemáticos de Elberfeld
que extraem a raiz e a elevam a uma potência,
calculam com seus cascos espertos, não suas cabeças –

porque o corpo tudo sabe
      mas um prego atravessa uma cabeça culta.

Diga que a filosofia é solidão e um cadáver
copulando com a razão e o bebê
é um discurso sobre o método e extensão imaginada.

Hoje
cavalos rápidos correm por uma França moribunda
e seus cascos batucam um conhecimento oculto
no osso-temporal cartesiano.
Hoje, eles e eu somos um só.

BOLO DE ANIVERSÁRIO – Mafalda Sofia Gomes

Dia haverá
e será de festa
em que me farás
um bolo

duas camadas
separadas
com cobertura
doce
celebradas
com recheio muito
amargo

no topo
as velas o fogo aceso
dado de presente
à maneira antiga
de humanizar

a alegria e o brio
da vida obnubilada na cozinha
as horas ensimesmadas
o fermento

perdido
na serpentina
das festas
que fazemos
para os outros

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

NÃO ME PEÇAM – Pablo Neruda

Pedem alguns que este assunto humano
com nomes, sobrenomes e lamentos
não os aborde nas folhas de meus livros,
não lhes dê a escritura de meus versos.

Dizem que aqui morreu a poesia,
dizem alguns que não devo fazê-lo:
a verdade é que sinto não agradar-lhes,
os saúdo e lhes tiro meu chapéu
e os deixo viajando no Parnaso
como ratos alegres no queijo.

Eu pertenço à outra categoria
e só um homem sou de carne e osso,
por isso se espancam a meu irmão
com o que tenho a mão o defendo
e cada uma de minhas linhas leva
um perigo de pólvora ou de ferro,
que cairá sobre os desumanos,
sobre os cruéis, sobre os soberbos.

Mas o castigo de minha paz furiosa,
não ameaça aos pobres nem aos bons.
Com minha lamparina busco aos que caem,
alivio suas feridas e as fecho.

E estes são os ofícios do poeta,
do aviador e do que trabalha na pedreira:
Devemos fazer algo nesta terra
porque neste planeta nos pariram
e temos que arrumar as coisas dos homens
porque não somos pássaros nem cachorros.

E bem, se quando ataco o que odeio
ou quando canto a todos os que amo
a poesia quer abandonar
as esperanças de meu manifesto,
eu sigo com as tábuas de minha lei
acumulando estrelas e armamentos.

No duro dever americano,
não me importa uma rosa mais ou menos.
Tenho um pacto de amor com a formosura,
tenho um pacto de sangue com meu povo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O INCÊNDIO - André Pieyre de Mandiargues

Tradução de William Zeytounlian

O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?

Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?

Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos

Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.

Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.

E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

MÁSCARA DE ALGUM DEUS – Blanca Varela

Frente a mim esse rosto lunar.
Nariz de prata, pássaros na frente.

Pássaros na frente?

E logo há vermelho
e tudo o que a terra esquece.
Umidade com poderes de fogo
florescendo por trás dos negros cílios.
Um rosto na parede.
Detrás do muro, além de toda vontade,
mais longe ainda que olhar e calar:
o quê?

Sempre há algo a romper, abolir ou temer?
E do outro lado? Ao contrário?

Voa a mão, nasce a linha,
vibrante destino, negro destino.
Por um instante a melodia é clara,
parece eterna a tarde,
puríssima a sombra do céu.

Volto outra vez. Pergunto.
Talvez esse silêncio diga algo,
é uma imensa letra que nos nomeia e contém
em seu ar profundo.
Talvez a morte detrás desse sorriso
seja amor, um gigantesco amor
em cujo centro ardemos.

Talvez o outro lado exista
e seja também o olhar
e tudo isto seja o outro
e aquilo isto
e sejamos uma forma que muda com a luz
até ser só luz, só sombra.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

CONSELHO DO ADMINISTRADOR DO BLOG

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O VASO PARTIDO - Sully Prudhomme

Tradução Guilherme de Almeida

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.

O SAPO - Tristan Corbière

Tradução de Marcos Antônio Siscar

Um canto na noite sem ar…
No seu metal claro o luar
Grava rasgos de verdescuro.

…Um canto: um eco, enterrado
Vivo, ali, naquele fossado…
– Calou-se: olha ali, no escuro…

– Um sapo! – Por que o pavor,
Perto do teu fiel soldado!
Vê, sem asa, um poeta tosquiado,
Rouxinol da lama… – Horror! –

…Ele canta. – Horror!! – Erro teu…
Não vês a luz que o olho irradia?…
Não: já se foi sob a pedra fria.
······································
Boa noite – o sapo sou eu.

O CÉU CONCEBIDO COMO UM TÚMULO - Wallace Stevens

Tradução de Paulo Henriques Britto

Que me dizeis, intérpretes, dos que
No túmulo do céu andam à noite,
Fantasmas negros da comédia finda?
Creem, talvez, que vagarão pra sempre
No frio, no escuro, com lanternas altas
Libertos da morte, a buscar sem trégua
O que quer que busquem? Ou a lembrança
Do enterro, portão da espiritual
Chegada ao nada, é antevisão diária
Daquela noite única e abissal
Em que as hostes não mais caminharão,
Nem mais lanternas riscarão a treva?
Gritai essa pergunta aos céus, que a ouçam
Os sombrios comediantes, e a respondam
Do seu longínquo e gélido Élysée.

ACALANTO - W. H. Auden

Tradução de José Paulo Paes

Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas
Tempo e febres consomem lentamente
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia,
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam
No seu declive indulgente e encantado,
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado;
Enquanto uma abstrata intuição desperta,
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam
Quando bate meia-noite o relógio
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar
– Assim o prevê o baralho mofino –
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento,
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar
A beleza, a meia-noite e a visão morrem:
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja
Nutrida pela força involuntária
E permita-te ir a noite adversária
Guardada pelo amor universal.

A FESTA DO SILÊNCIO – Antonio Ramos Rosa

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

- António Ramos Rosa, em “Volante Verde”, 1986.

HAVEMOS DE VOLTAR – Agostinho Neto

Às casas, às nossos lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossos terras

vermelhas de café
brancas de algodão
verdes dos milharais 
havemos de voltar

às nossas minas de diamantes

ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos

às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba

às  nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissangue

ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana

nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar

À Angola libertada
Angola independente

- Agostinho Neto (Cadeia de Aljube de Lisboa, Outubro de 1960), em "Sagrada esperança".

OS SAPOS – Manuel Bandeira

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

É PRECISO FAZER ALGUMA COISA – Thiago de Mello

Dentro do riso torto que disfarça
a amargura da tua indiferença,
na mágica eletrônica dourada,
no milagre que acende os altos-fornos,
no desamor das mãos, das tuas mãos,
no engano diário, pão de cada noite,
o homem agora está, o homem autômato,
servo soturno do seu próprio mundo,
como um menino cego, só e ferido,
dentro da multidão.
Ainda é tempo.
Sei por que canto: se raspas o fundo
do poço antigo da tua esperança,
acharás restos de água que apodrece.
É preciso fazer alguma coisa,
livrá-lo dessa situação voraz
da engrenagem organizada e fria
que nos devora a todos a ternura,
a alegria de dar e receber,
o gosto de ser gente e de viver.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

FOLHAS – Derek Mahon

Tradução de Marcelo Tápia

Os prisioneiros da infinita escolha
Construíram suas casas
Num campo sob a mata
E estão em paz.

É outono, e as folhas mortas
Em seu caminho para o rio
Arranham como pássaros às janelas
Ou pulsam na estrada.

Algures há uma sobrevida
De folhas mortas,
Um estádio lotado de infinitos
Sussurros e suspiros.

Algures no horizonte
De extintos futuros
As vidas que podíamos ter levado
Encontraram seu próprio destino.

SEGUIDOR – Seamus Heaney

Tradução de José Antonio Arantes

Meu pai lavrava com charrua e cavalo.
Os ombros redondos como velas pandas
Entre os varais e o sulco. Bastava um estalo
De língua e os cavalos iam forcejando.

Um conhecedor. Colocava a travessa
E ajustava a relha de aço agudo e vivo.
Rolavam sem quebrar os torrões de terra.
Na borda do campo, a um tirão imprevisto

De rédeas, a junta suarenta virava
E voltava para o terreno. Ele
Estreitava um olho a fitar a lavra,
Traçando o sulco exatamente.

Eu tropeçava nas pegadas das botas,
Caía às vezes na céspede luzida;
Às vezes ele levava-me nas costas
Descendo e subindo ao ritmo da lida

Eu queria crescer e lavrar,
Fechar um olho, firmar os braços.
Tudo o que fiz foi seguir sem parar
Pela fazenda à sombra de seus passos.

Um estorvo, falante, falseando,
Caindo sempre. Mas agora
É meu pai que vive tropeçando
Atrás de mim, e não vai embora.