segunda-feira, 18 de novembro de 2019

SOB O SOL - Paul Valéry

Tradução: Augusto de Campos

Sob o sol em meu leito após a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!

ABRIR DE OLHOS - Laura Riding

Tradução de Rodrigo Garcia Lopes

Pensamento dando para pensamento
Faz de alguém um olho.
Um é a mente cega-de-si,
O outro é pensamento ido
Para ser visto de longe e não sabido.
Assim se faz um universo brevemente.

A suposição imensa nada em círculos,
E cabeças ficam mais sábias
Enquanto notam a grandeza,
E a dimensão imbecil
Espaça a Natureza,

E ouvidos reportam primeiro os ecos,
Depois os sons, distinguem palavras
Cujos sentidos chegam por último ─
Vocabulários jorram das bocas
Como por encanto.
E assim falsos horizontes se ufanam em ser
Distância na cabeça
Que a cabeça concebe lá fora.

O maravilhar-se, que escapa dos olhos,
Regressa a cada lição.
O tudo, antes segredo,
Agora é o conhecível,
A vista da carne, a grandeza da mente.

Mas e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao prever em si, de repente demais,
A visão evidente demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mundamente atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável.

FIM DE 68 – Eugênio Montale

Tradução de Geraldo H. Cavalcanti

Contemplei da lua, ou quase,
o modesto planeta que contém
filosofia, teologia, política,
pornografia, literatura, ciências
exatas ou arcanas. Nele há mesmo o homem,
e eu entre eles. E tudo ë muito estranho.
Dentro de poucas horas será noite e o ano
terminará entre explosões de espumantes
e fogos de artifício. Talvez de bombas e coisas piores,
mas não aqui onde estou. Se alguém morre
ninguém se importa desde que seja
desconhecido e longe.

sábado, 16 de novembro de 2019

É PRECISO LUTAR - Rafael Rocha (1968)


Nestes dias mal assombrados
O medo anda solto nas ruas
E as felizes memórias do passado
Não servem para nada

Dizem que memórias não morrem
Mas o mundo está fracassando
O desespero anda por todas as casas
E o terror finca raízes nas ruas

Homens maus escrevem mentiras
Nas páginas de todas as vidas
Não há como fugir.
Mas é preciso lutar.
É preciso lutar.
É preciso lutar.

POEMA DE AREIA E VENTO – Nísia Nóbrega

Por onde, Mamanguape?
O medo ia e vinha
com cheiro de caldo de cana,
no vento encanado
das ruas de Areia.
Areia é só ventania:
vento trazendo lembrança
de gente buscando ouro,
de gente tangendo bois.
Areia de hoje rima vento e convento,
faz-se caminho do amanhã,
cresce no estudo,
religiosamente renascente.
Areia de ontem,
por onde?

CONSTATAÇÃO – Sônia Barros

Descobriu sem tristeza
e, apesar de ter sentido
uma espécie de frio,
tampouco houve surpresa
no momento da descoberta:

não é a morte o pior verdugo,
com seus fios verde-musgo,
garras sob pele tenra,
hera primeva a esconder
no ventre o muro do fim;

carrasco a cavar na alma
maior ruína é a sina de ser só
— sol latente no coração da sombra —
que em nada se aproxima
do estado desejado de não ser.

CONFITEOR – Moacyr Chagas

Quando um dia surgiste no meu horto
De beduíno sem lar, sem caravana,
Meu coração lembrava um templo morto,
Sangrando ao peso da injustiça humana!

Naquele instante, o teu olhar absorto
Fitou-me, e, escravo aos pés da soberana,
Por te pedir mais fel, no desconforto,
Deste-me a esmola da Samaritana...

Provei-a! Melhor fora não provasse! . ,
Não a felicidade que deixasse
Qualquer vestígio, ao penetrar aqui . .

A sede é tanta, e o liquido tão pouco,
Que, se partisses, maldiria, louco,
Até mesmo o momento em que te vi!

SE ELA SOUBESSE LER - Agenor Silveira

Se ela soubesse ler — que bom seria!
Que bom!  com que prazer
E comoção meus madrigais leria,
Se ela soubesse ler!

Se soubesse escrever – oh!  que alegria
Não havia de ser!
Que páginas de amor me escreveria
Se soubesse escrever!

Mas quantas outras, quantas, não podia
De estranha procedência receber!
E então – que horror!  Que grande horror seria,
Podia a todas elas responder,

Permita o justo céu que a desalmada,
Que assim me soube o coração prender,
Aprenda a amar-me apenas, e mais nada,
Porque mais nada lhe convém saber…

FLOR IMEDIATA – Adalberto de Queiroz

No quarto de hotel, ela
passeia sua nudez
como quem rega um jardim;
e eu nada vejo que não floresça.

Do estreito triângulo ao limite
dos seios, sugo a paixão, flor em fogo
brando, ao poeta consumindo.

Filha e irmão, parceiro e gueixa,
dividimos a companhia do 906,
em projetos de ontem, espinhos
futuros - flor imediata.

Anima divina, mãe, pitonisa e maga
decifra-me os atos, antes que tarde:
- Na ampulheta do corpo o tempo
se esgota célere e o prazer escorre:
areia velocíssima.

E, num segundo, vadeamos o espaço
de crianças solitárias, com medo da cidade,
em vário instante transportados
ao reino da primavera
por faunos e musas visitados.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

HINO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA – Medeiros e Albuquerque


Poema do pernambucano do Recife Medeiros e Albuquerque

Música de Leopoldo Augusto Miguez

 

Seja um pálio de luz desdobrado
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel, que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas! Na tempestade!
Dá que ouçamos tua voz

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro
Brilha, avante, da Pátria no altar!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas! Na tempestade!
Dá que ouçamos tua voz

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou neste audaz pavilhão!
Mensageiro de paz, paz queremos
É de amor nossa força e poder
Mas da guerra, nos transes supremos
Hei de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas! Na tempestade!
Dá que ouçamos tua voz

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado
Sobre as púrpuras régias de pé
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos loçãos!
Seja o nosso País triunfante
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas! Na tempestade!
Dá que ouçamos tua voz

terça-feira, 5 de novembro de 2019

NOVILÚNIO – Eduardo Guimarães

Novilúnio de outubro. É primavera. Sente!
Que silêncio! Não move uma só brisa. Odor
a jasmins. Larga e verde, a água-morta jazente.
Nela ao fundo azulado o céu. Nenhum rumor.

São como aparições as árvores. Que mágoa,
a destes salgueiros! Ó vastas solidões!
Pânica encenação da sombra à beira d´água
que reflete ao luar a copa dos chorões!

Desfaz-se a mancha azul do cerro que se obumbra.
E eis que, a espátula, a treva o quadro singular
pinta: e por tudo cria efeitos de penumbra...
ouve-se o coração das cousas palpitar.

Nada turba entretanto a música divina
do silêncio, nem mesmo a orvalhada a cair
da altura e a marejar duma geada fina
e límpida os botões das rosas por abrir.

Novilúnio de outubro. É primavera. Sente:
que aroma, o dos jasmins! Dorme tudo ao redor.
Nenhum rumor que se ouça — o dos sapos somente
que faz mais calma a noite e o silêncio maior.

INSTRUÇÕES FINAIS - Cecil Day-Lewis

Tradução de Ivo Barroso

Há certos princípios para o sacrifício –
Poucos, mas essenciais.

Não me refiro ao ritual. Isto já aprendeste –
A guirlanda, o sal, o uso correto da lâmina,
e o que fazer com o sangue:
Embora valha a pena lembrar-te que não há
Dois sacrifícios que se realizem de maneira idêntica—
Não no que diga respeito a este deus.

A iniciação do celebrante pode ser resumida
a três palavras – paciência, alegria
E desprendimento. Lembra-te de que não sacrificas
em prol de tua própria glória nem pela paz de tua mente:
Estás ali para assistir às partes e agradar ao deus.

Inútil dizer
Que só o melhor é bastante bom para este deus.
Mas o melhor – devo enfatizá-lo – mesmo o teu melhor
Não há de ser de modo algum sempre aceitável.
Não desanimes:
Algum lagarto ou um gato errante
Podem provar de teu sacrifício
E agradecer o deus: não há de ser de todo inútil.

Mas o ponto crucial é o seguinte:
Foste chamado apenas para executar o sacrifício:
Dele participar ou não vai competir ao deus:
E seja o que for que os manuais te ensinem,
Não podes nem ordenar sua presença
Nem mesmo interpretá-la…
Tudo o que podes fazer é torná-la possível.
Se o sacrifício por si mesmo romper em chamas
Sobre o altar, é bom sinal. Mas não
Presumas que foram tua disciplina e dedicação
Que operaram o milagre:
Elas apenas o permitiram.

Sorte é, pois, tudo quanto eu possa
Ou deva desejar-te.
E cada vez que te preparares para inclinar
Sobre a ara e ofertar de novo o que tens a oferecer,
Recorda-te, meu filho,
As três palavras – paciência, alegria, e desprendimento.

IMPROPÉRIOS – Pedro Américo de Farias

não sou poeta de pátrias e pátios
devagar com o andor da poesia,
poeta, a musa pode ser de barro

palavra, ave que voa e vai à toa
toada que vai e vem numa boa

espalho minha alegria e minha dor
grito e berro as palavras proibidas
impropérios que a opressão impõe

debochando nos pés do deus censor
sou um bruxo em meta de mestrados
vou em busca do meu proust perdido

ULTIMA RATIO REGAM - Stephen Harold Spender

Tradução de Ivo Barroso

Os canhões proclamam a última razão do dinheiro
         Em letras de chumbo na primavera dos montes.
Mas o moço que jaz morto sob as oliveiras
Era jovem e ingênuo demais
Para ser notado por seus olhos soberbos.
Era alvo melhor para um beijo.

Quando vivo, os apitos das grandes fábricas
nunca o convocaram.
Nem as portas giratórias dos restaurantes lhe acenaram
um convite para entrar.
Seu nome nunca apareceu nos jornais.
O mundo manteve sua tradicional parede
Em torno do morto com seu ouro aprofundando
como um poço,
Enquanto sua vida, intangível como um boato
da Bolsa de  Valores, perambulava lá fora.

Quão facilmente deixou cair o seu boné
Nesse dia em que a brisa soltava pétalas das árvores.
O muro sem vegetação onde brotavam balas
         E a ira das metralhadoras ceifando rapidamente a grama;
Bandeiras e folhas caíam das mãos e dos galhos;
O boné de xadrez apodreceu nas urtigas.

Considerem sua vida que foi sem valor
Em termos de emprego, etiquetas de hotel,
arquivos de notícias.
Considerem. Uma bala em dez mil mata um homem.
Perguntem. Tamanha precisão se justificava
         Para a morte de alguém tão jovem e tão ingênuo
         Jazendo sob as oliveiras, ó mundo, ó morte?

ISTO NÃO É PARIS - Uberto Stabile

Tradução de Tiago Nené

Isto não é Paris
nem são cinco da tarde
nem chove
nem há cómicos na rua
e tampouco nesta esquina
desta cidade que não é Paris
há um realejo surpreendido
e um pintor boémio
e uma garrafa de vinho
porque às cinco da tarde
esta cidade não é Paris
e não existe um amor curioso
escondido atrás da cortina
enquanto Edith Piaf canta
Les amants de Paris
Nem a recordação do Sena
me leva as minhas memórias tristes
desta cidade sem noite
nem espelhos de mel
e não minto se disser
que Paul Éluard saiu do meu quarto
com asas de melro branco
pela janela desta cidade
que não tem pombas nem bêbados alegres
porque às cinco da tarde
esta cidade não é Paris.