INQUILINO INCÔMODO EM UM PODER DE MERDA
varridas vidas em leitos sem oxigênio
coisas de doer
descoloridas perspectivas
não mais o almoço de domingo
não mais as flores de primavera
quartos arrumados, mesas postas
repousos de pedra
inútil vazio
e
silêncios
sem despedidas
.......
XEROFILIA
caatinga, caapões, gramael e seridós:
sigo descalço, riscando a trilha,
no desvio dos espinhos das macambiras
embrenhado na mata seca e branca
entre o cheiro bom do mussambê
e o alaranjado dos mulungus.
.......
TORRÃO DE AÇÚCAR
desmanchado silêncio
na aurora da palavra
o café quente cabe no poema
O Grande Ateop nasceu do choque de uma constelação fantástica de treze estrelas lá nos limites insondáveis do universo. O Grande Ateop não teve pai nem mãe e nenhum deus ou deusa para gerar sua vida. Sua idade é de bilhões de anos e seus escritos estão em todos os murais das civilizações humanas universais.
quinta-feira, 14 de julho de 2022
POEMAS de Marcos Freitas
quarta-feira, 13 de julho de 2022
COSTURA – Diego Rebouças
para minha mãe
.......
nave crua do tempo
de pedras pontes presságios
medusas enraizadas
no fundo de uma gaveta
onde dormem traças
e meias sem par
que será do verso erguido
em homenagem à minha avó
costurando bonecas de pano
perdidas nas memórias das filhas
hoje todas grandes
(todas, sem exceção)
era que ano, esse de minha avó,
na praia com cara de sertão?
em que limbo, linha e chita
sua mão ainda hoje exercita
costuras na minha imaginação?
ora veja, tempo, nave crua,
como as coisas são:
da pedra nasceu a ponte
e da ponte o presságio
da mão sumida no verso
perdido na gaveta – qual?
não sei, nem sabe ninguém;
no improviso do resgate, um
novo poema se abre porém,
se enraíza no chão
dos improváveis
como uma flor miúda
inaugura na paisagem
toda uma usina
de sinas insondáveis
DOIS POEMAS de Nilto Maciel
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.
Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto e puro.
Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.
E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro d'alma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser. Possessão
Nada é meu,
nem a vida,
que é minha.
.......
SÍSIFO
Para Cátia Silva
O meu destino é semelhante àquele
imposto ao legendário rei coríntio,
que carregava ao ombro para o monte
pedra que despencava em avalancha.
Buscava novamente a rocha bruta,
subia o monte e, mal chegava ao cimo,
de suas mãos sangradas escapava
o mineral, que ao solo retornava.
E assim jamais o seu suplício ao fim
chegava, mesmo exausto, quase morto.
O meu suplício é semelhante ao dele
? a cada “não” que tu me dizes, subo
minha montanha, carregando pedras,
que se desprendem de meus ombros, rolam
ladeira abaixo, e volto a ti, pedinte.
E tu de novo dizes “não”, sorrindo.
Apanho minha rocha, subo o monte.
Se conseguir chegar ao cimo e lá
deitar a pedra, ao chão fincá?la, o “sim”
de ti terei; porém fui condenado
a carregar meu fardo vida afora
e vê-lo escorregar pelas escarpas.
E quando quase morto me encontrar,
sabendo, embora, que somente “não”
a mim dirás, ainda assim direi:
“Melhor este suplício, a ser feliz
longe dos olhos teus, vizinho à morte”.
terça-feira, 12 de julho de 2022
RELÓGICO – Mantovanni Colares
“¡Ay qué terribles cinco de la tarde! / ¡Eran las cinco en todos los relojes!”
(La Cogida y la Muerte. García Lorca)
Quando menino
Às três horas da tarde, me parecia que
O mundo inteiro estava feliz
Nessa hora, achava-me geralmente no
Quintal da casa da infância, a
Brincar na lavanderia, que me
Parecia um enorme oceano onde
Barcos singravam sem rumo ou destino
Sempre às três horas da tarde
Eu sentia ali a própria felicidade, e o
Engraçado é que sequer portava relógio
Porque nesse tempo o adorno de pulso
Era privilégio dos já crescidos
Sabia eu, porém, a exata hora, eis que
O sol me anunciava a mediação
Entre o início e o fim do entardecer - era
U’a sensação única aquele calor nas
Costas a não incomodar; um afago de
Saudação do astro-rei
Três horas da tarde, dizia então sorrindo
E porque eu me encontrava invariavelmente
Feliz, achava por bem que assim todo
O mundo se pensava naquele instante
É que, para mim, o relógio marcava a
Felicidade, a chegar sempre às três horas
Da tarde. Era lógico, tão lógico que
Nem duvidava da óbvia certeza
Só muito tempo depois, quando
Três horas da tarde passou a ser mero
Referencial de pesarosos compromissos
No enfadonho mundo dos adultos,
Descobri que a felicidade não é
Transportada por relógios
Senão o medidor de felicidade seria um
Relógico, onde os ponteiros só marcariam,
Invariavelmente, três horas da tarde.



