sábado, 18 de maio de 2019

REMORSO PÓSTUMO – Charles Beaudelaire

Tradução de Guilherme de Almeida

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar seu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,

O túmulo que tem seu confidente em mim
– Porque o túmulo sempre há de entender o poeta –,
Na insônia sepulcral destas noites sem fim,

Dir-te á: “De que te serviu cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?”
– E o verme te roerá como um remorso atroz.

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