domingo, 28 de fevereiro de 2021

CONVITE TRISTE – Carlos Drummond de Andrade

 

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um umbigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

ELISOIDAL – Urbino de San-Payo

 

Passo agora teu mando pelos dias
e uma saudade veste o mundo e caso
mais que ninguém teu lance-se-pedir

Terreno mundo muda os olhos-fala
outro chicote que me fere a luz
É deus de adeus por quem se cala
a mística presença desta cruz

Este poema é a noite sem dormir
a parte do homem que me atura
a mãe que não deixa de pedir
que chegue com metade à minha altura

Quem canta quando a noite não sossega
no homem mais sorrido de loucura
e vem paisagem dividir a dor
até ser multidão esta amargura?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

AMARGURA – Lauro Silva

 

Vida fora, vou só, despercebido,
Inutilmente, como um ser qualquer;
A escutar o responso de um gemido
A todas as palavras que eu disser.

Eterno insatisfeito e incompreendido,
pressinto a anulação do que fizer.
Não recebo um louvor, mesmo fingido;
Não me anima um sorriso de mulher.

A tropegar, sem fé, olhos errantes,
Tangido pela glória dos amantes,
Caminho para um termo que não sei.

E rolo como um seixo no declive,
Ansioso pelo bem que nunca tive
E saudoso do amor que não terei.