segunda-feira, 2 de novembro de 2020

TONELADA – Izabelle Arruda

 

Pesa sobre ele o fardo das horas mesmas.
Sobre ele, o peso do relógio de ponto,
Cruel tic-tac da vida que não volta:
Já foi sem ter sido.

Pesa sobre ele o vazio das horas bêbadas.
Sobre ele, a culpa pelo fácil escape,
Macabro tim-tim, brindando a morte dos sonhos,
Do que poderia ter sido.

Entre ses e poréns,
O não ao sim e o sim ao não,
Recusou-se a ser,
Limitou-se a apenas ter.

Pesa sobre ele a responsabilidade da escolha.
Sobre ele, o nó na gravata,
Na garganta,
No peito.
Sisuda dor inconsequente de todos os dias.

Entre lamentos e quandos,
Empurra para frente o peso dos sonhos.
Para o finalmente da vida:
A glória de ser.

Pesa sobre ele o úmido da terra.
Sobre ele, a ironia do inevitável.
Teve carros e cargos,
Mas não pôs mochila nas costas,
Não tocou viola na rua,
Não amou,
Não viveu.

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